terça-feira, 21 de setembro de 2010

Poema: Bicicleta - Marcelo Asth


BICICLETA

Pra que ouvir o espocar das letras?
Apague o som, ande de bicicleta,
E canta mudo, que o vazio te representa.
Branco monótono. Espio as setas
Das direções de suas rodas lentas...

Marcelo Asth

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poema: Balão - de Marcelo Asth


BALÃO

Quero-que você-balão-de-sonho
Desponte-onde mora-o-meu-abandono.
Se-pousa-aqui. Funda teu-mundo,
Explorador-de-mim-e-quando-dono.
Do-meu-segundo.
Meu-coração é uma-bomba-relógio
Que-pulsa-o tempo-solidão à-beça
Na iminência-que a-veia assim-peça.

Quero-que você-dance-sem-medo
Desaponte-onde o-pudor se-junta à-paúra-cedo.
Repousa-ali. Que-cansa o-mundo.
Implorador-de-mim-e-sempre-oriundo.
Do-eu-profundo.
Sua-oração é amar-sorrir-lógico
Que-expulsa-o vento-solução-quiçá.
Na permanência-que almejo teu-amor-fixar. 

Marcelo Asth



É tão divertido. É engraçado. É só comigo. Essas mensagens vem, por acaso, ou não. E eu leio. E durmo. E guardo. E parece que mudo.

Bloba

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Hoje o sono não está vindo. E poema também não.

Eu não consigo mais dormir bem se não tiver uma cama em cima da minha. Dormi assim a vida inteira. Por isso talvez eu não viaje há tanto tempo. Pra mim o sono é fundamental. Hoje o sono não está vindo. Daí o poema não vem.


Bloba.

Poema? Dramaturgia urge - de Marcelo Asth


Dramaturgia urge
Atávico

Eu queria preencher-me de mistérios e lacunas pra possibilitar descobertas. Eu tenho vontades ancestrais. Queria falar-te em mais línguas, todas frementes de ansiedade e espera. Sou o acaso da constituição em andamento. Quero estar em mim, estar em ti a todo o momento. Viro palavra pra que caiba em tua boca, na pronúncia quente do silabar que se lambe com letras e se lambuza em meu entendimento. Trago dores dentro de mim que são comuns a todos, mas que sempre me parecem ser apenas minhas. Minhas dores. Mas também sou um açude de paixões submersas. Secretas. Expostas. Profundas. Rasas. Bestas. Abissais. Ando pela calçada e me encostam ímpetos nos pensamentos. Vontade de passar a mão lentamente no rosto de um desconhecido. Às vezes um sol ilumina uma pessoa e você quer ser um pouco de sol. Simples.
Tenho tendência aos sonhos com águas desvairadas, ondas escuras e de volume espantoso. E se desperto no susto de uma realidade cortante, entendo que esse mar é dentro de mim, é um espírito liquefeito de aspirações, turbulências, sutilezas e desejo dos momentos. Não há definições de um. Não há modos de ainda. Há procuras de soluções. Mas sou todo perguntas. Eu, por exemplo, venho constituído de fogo e água. Vezes me evaporo, vezes me apago. Nisso sou reticências... mas sou o encontro de possibilidades. Eu tenho vontades ancestrais. Atávicas. Eu queria escrever-te versos ensolarados que me mascarassem de volúpia. Mas dou-me assim, desnudo e faceiro, pra que não me defina. Pra que seja definido.

Marcelo Asth



Ontem fui deitar cedo e o envelope da noite me chegou rapidamente. Achei interessante não vir um poema. Ou será que é? Bom, prefiro chamar de texto. Então é possível não quebrar linhas. Você não precisa de rimas. Mais uma possibilidade de comunicação entre a gente. Eu gosto bastante dessa coisa nova que veio. Eu não vou mais pedir que se comunique comigo. Fico sempre num estímulo de entender os mistérios com simplicidade. O que temos, é poderoso. Mas se puder, escreve alguma coisinha-mesmo-que-pouca pra ratificar tua existência e consciência de que você vem até a mim todo dia, presente em verso.

Quanto à foto, noto que elas não estão mais tão manipuladas. Quem ou o quê que as faz? Você?
Fiquei olhando essa e pensando no que é sonho. Não sou muito de sonhos. Mas acho bonito preencher. 

Bloba. 

domingo, 29 de agosto de 2010

Poema: Pantanal - de Marcelo Asth


Pantanal

Por favor, chora teus rios,
Que o acúmulo de mágoa
Água o espírito.

Vejo grandes pantanais
Nas lágrimas de crocodilo.
Imensas cobras corais
Suam frio.

Charco inundado que aguarda
Faz solar com a clarabóia
Do vitral da gota aguada
Das retinas de jibóia.

O raio esquenta a pedra,
Faz a água levitar mais.
O sol sobre os gélidos bichos
Dos teus canais lacrimais.

Fechadas em duros cascos,
Frascos, clausuras morais,
Escorrem as tartarugas
Nas rugas que o solo faz.

Inundam teu chão carcomido
Carregado de sinais,
Rachados e escondidos
Erros-répteis-animais.

Saem, caem pelos cantos,
Se lambendo, silabando,
Mordiscando com nervoso
Os pingos do parado pranto.

Aos poucos agarra o limo
Nas paredes dos umbrais.
Teus olhos quentes barreiam
Lagos alagados de ais.

Lagartixas e salamandras 
Largam na água suas rixas
Pra emanar o teu mantra
Contra emoções tão prolixas.

Natureza preza paz
Sibilando na frieza
Sonhando com as aquilégias
Em tuas nubladas veias
Que lançam vitórias-régias  
Com o jorrar das cachoeiras.

No susto o açude seca
Na paisagem de savana estépica.
O espírito inspira sol
Na salobra poça tépida.

Rios, vazantes, corixos,
Desígnios de um atalho molhado,
Somem na seca com os bichos
Num coração entocado.

Marcelo Asth


Pantanal. Umidade. Veio esse poema anteontem, mas posto hoje. Não foi nenhuma resposta ao que eu postei da última vez, mas gostei de nadar nos corixos. Me senti uma cobra d'água brasileira.

Quando puder, responda. Enquanto não puder, continue escrevendo poesia. Que sempre leio daqui.

Escrevi um poema e escondi junto aos teus. Será que ele chegou aí?

Começo a duvidar de mim.

Bloba.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Poema: Carta de Marcelo Asth a Bloba - de Marcelo Asth

Carta de Marcelo Asth a Bloba

As serpentes se afastam
Com a figa de azeviche.
Várias palavras sibilantes
Ressoam caóticas no teu beliche.

Nem tento entender de que jeito
Meu pensamento, por fetiche,
Adentra as portas do peito
De quem dorme num beliche...

Não sei por que
O que eu penso escrito
É transcrito do meu peito
De um jeito esquisito.

Meus poemas arrombam tua fresta.
Sob a porta correm versos...
Não escrevo pra este ou pra esta.
Escrevo pras paredes do universo.

Mas secretos fogem de mim,
Escolheram a ti pra roubar muito sono.
E como seu sonho, assim,
Recolhe meus versos e não sou mais dono.

Não duvida de pastiche,
Plágio ou só brincadeira.
Você põe no teu beliche
De uma forma corriqueira,
Na cama que em cima existe,
Tantos símbolos, besteiras
De feia poesia triste
De viagens altaneiras.

Já tentei por muita carta
Entrar em contato contigo.
Percebi que a porta descarta
O que não é verso do seu amigo.

Fiquei aqui, quebrei a cuca,
Pra escrever assim em verso
Uma mensagem maluca
Entre dois mundos diversos.

Não tem tanta qualidade,
Mas só assim que chego a ti.
Através das linhas tortas
Que eu já escrevi em mim.

Marcelo Asth


Foi com sobressalto, como se minha cabeça gelasse e meus pés tremessem, que li este poema na madrugada de ontem. Só por ler o título estremeci imaginando numa fração de segundo o que viria como conteúdo. 

Consegui estabelecer um contato com Marcelo Asth. É como se eu, extraterrestre, fizesse uma descoberta. São dois mundos diversos, como ele diz. Mas compartilho tantas minusciosidades com ele, tantas intersecções...

Agora, a essa altura, quando não acredito mais em sonhos e explicações, tento me definir nessa relação postal-enigmática. Se viessem os versos através de pombos, eu imaginaria estar sendo alvo de chacota. Mas essa relação entrepassa as frestas que os versos rompem, noite à noite, íntimos e secretos, roçando na madeira da casa rodeada de árvores que não escutam seu silêncio.

Tenho vontade de começar a escrever poemas, anotá-los, guardá-los, mesmo que numa caixa, ou junto com os teus que recebo, sob a cama de cima. 

Será que se eu escrevo, algum chega pra você, por debaixo de alguma porta sua? Ou se perde na casa de um tirolês desempregado? 
É perigoso brincar com palavras. É perigoso dar teu significado através de um poema. Não é todo mundo que te entende.

Bom, agora que sei que você me escreveu cartas e nenhuma me chegou, que só vêm versos, peço pra que use mesmo as rimas ruins pra me dizer como faz no teu ritual de escrita. Você faz como? Escreve, guarda em algum lugar, acende uma vela e escreve com pena, delira na tela do computador?


Ah, eu sabia que a pedra de azeviche era ligada ao luto. E agora procurei na internet a relação da pedra com as serpentes.

Quero me comunicar mais com você. Sinto que me comunico também mais comigo.  

Beijo, Bloba.

domingo, 22 de agosto de 2010

Poema: Jangada - Marcelo Asth


Jangada
Canção do Náufrago - Poema Épico

Dei pra fitar meus olhos transatlânticos
Na jangada, que brava, percorre teu mar.
Cantar de improviso algum cântico
Em prol do meu remo, do sol e da proa.
Três horas eu dei pra ficar
Perdido na água de sal numa boa,
Miolos tão quentes a me provocar:
“Naufrágio celeste, morrer no teu mar...”

Minha jangada é firme,
Lambe os seios das ondas.
Delírios como num filme
Transformam-na em gôndola.

Horas de sol, horas a fio...
O meu relógio é o sol a pino,
A falta d’água, meu desafio.
Cantando alucinado, desafino.

Minha embarcação que, breve,
Brava destemida tão leve,
Irá abarcar-se na primeira ilha,
Radiante sobre as águas
Passa muitas milhas.
No mar de minhas mágoas
Por mais de mil trilhas,
Cavei com meu remo a distância do ainda.

Dez horas eu dei pra ficar
Cantando no riso teu canto,
Perdendo a cabeça no mar,
Tão infinito de espanto.

Contar pelo riso semântico
Letras de tuas águas.
Formar gritos de socorro
Em prol da solidão das tábuas.

Delírio de estrelas,
Noite soberana.
- Quando quiser vê-las
Abro a mente insana.

Janela incandescente
É o olho que tudo vê,
Mas nada mais sente
Do que o longe esmaecer.

Doido de enjôo e arrepio
Meu corpo queimado e doído,
Clama de amor e de frio
Rolando na água esquecido.

No mar impossível, este teu,
Largando o meu corpo pra ti,
Devoram-me os peixes daqui,
Do mar denso e gélido que me deu.

Dei pra fechar meus olhos transatlânticos
E emudecer minha boca tão cheia de cânticos.
Minha jangada se encontra perdida no ainda...

Marcelo Asth



Quando o envelope chegou, levantei automaticamente para ler o conteúdo. Mas esse poema é longo demais. Não consegui terminar. Dormi, acordei e li novamente, às 10h da manhã, no sol do inverno, ao som de muitos passarinhos nas árvores que vejo da janela. Aí gostei bastante dele, do poema. Pintei meus olhos com tinta, improvisei um mar com dois baldes d'água, coloquei às alturas Dvorák e cantei esse poema em voz alta, frente ao espelho, por mais de três vezes consecutivas. Depois tomei um banho e pensei em praia, em comer peixe. Bloba quer descanso. 

Será que se eu tirar alguns dias em outra cidade os envelopes ainda assim me seguirão, Marcelo Asth? Desafio! Tiro férias!