domingo, 24 de outubro de 2010

Poema: GATOCAPÔ, Marcelo Asth e Lucas Nascimento


GATOCAPÔ 

O gato deitado no capô
sabe mais coisas que eu
sobre meu avô.
Ele sabe de segredos,
coisas que não vi.
Tilintando seus bigodes
ele pensa em existir.
Logo existir.
O vento bate e eu sei porque.
O gato fala de antepassados.
De buracos na parede.
Língua de gato!
Língua de gato!
Mistério da vida.
Agulhas
são suas garras
agarrando as angústias.
Sentindo tudo no pêlo.
Eriça e atiça o segredo.
Brinquedo do meu avô,
que sabe quem brincou.



Marcelo Asth e Lucas Nascimento 
ao verem o gato descrito num capô de um carro na Lauro Muller

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poema: Rio


RIO

Sou dessa maneira,
Dessa liberdade de rio.
Mas tenho margens.


Vou me espalhar
De nulo a Nilo,
De Nilo a Amazonas
Pra abarcar tudo aquilo
Que amarei nessas zonas
Sazonais da tua terra,
Meu leito dourado.

O rio estourou do meu peito.
Perfeito.
Estourado jorra feito orgasmo.
Pasmo. 


Marcelo Asth

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poema: Troca

TROCA

Me convoca.
Troca no ato.
Me provoca.
Uma colisão.
Me cutuca.
Rua carioca.
Lambe a nuca.
Numa contramão.

Me encaçapa.
Bola e taco.
Me ensina.
Dá tua mão.
Me calcula.
O ponto fraco.
Me sinuca.
Tateação.

Me entoca.
Beco e eco.
Me enlaça.
Beiço e bossa.
Me constata.
Bico e boca.
Te resolve.
Vem, me cata.
Me envolve.
Num boteco.
Me revolve.
Me destrata.
Me expande.
Não me mata.

Não me apaga.
Sente tenso.
Sim, me queira.
Assim penso.
Me caduca.
Se assim não.
Não machuca.
Coração.


Marcelo Asth

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Poema: Conflito



CONFLITO

Na falta de flores,
Os beija-flores, tão aflitos,
Vão procurar sua boca,
Provocar vários conflitos,
Pois seus lábios são tão doces
Como mel pra passarinho.
Se sua boca minha fosse,
Iria devagarzinho
Tirar todo o seu açúcar
Pra não ter nenhum perigo
De dividir sua boca
Com um beija-flor atrevido.


Marcelo Asth

Poema: Goela


GOELA

Antes do surto
o susto,
o temido desvario.
O rio que criei
desaguou na goela de um boi sedento.
E foi assim, desalentado, que lento, 
fui secando a terra
e fui rachando o solo
da mais bela quimera.
Que me erra.
Que me enterra.
Que me era uma vez.


Marcelo Asth

sábado, 16 de outubro de 2010

Poema: Pingos



PINGOS

Possibilidade de se encontrar
dentro de si a qualquer hora.
Em qualquer lugar que esteja perdido,
abaixo de alguma referência de partida.
Pode ser num tempo esgarçado
ou sejamos esses atemporais temporais 
que caem de um céu anacrônico
e lambuzam nossa densa mata
com os pingos gelados da chuva que nos leva.
A nós, que nús, nos lava.


Marcelo Asth



Oi Marcelo, tenho me encontrado ouvindo música e lendo cartas antigas. Tenho algumas fotografias, mas não tiro da caixa há tempos. Prefiro as palavras. Aqui tem caído algumas chuvas, mas nunca me molham. Amo a possibilidade da janela.

Não se resfrie!

Bloba



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema: Habitat


HABITAT

Creio em tudo isso.
Meu pensamento migrou de mente.
Habitualmente minha mente habita a tua
E sabendo disso, tua mente se sente nua.


Marcelo Asth