terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Poema: Profecia


PROFECIA

Eu sinalizei o fim dos tempos
Mas com todo esse tormento
Nem mesmo eu acreditei na acusação.
Perdi o encanto
E o quebranto se instalou,
Mas, entretanto, o acalanto,
Este sim, me abençoou.
Depois do caos refiz o mundo
Lendo a Bíblia ao reverso
E tendo em ti o pensamento
Como verso.
Minha aversão em sintonia,
Apuro assim em profecia.
O ar puro que em mim preferia,
Pacificou assim a prévia da melancolia.
Eu finalizei o sim dos ventos,
Eclipsando meus díspares dias
Chovendo um burburinho numa celeuma
E praguejando o mal do século
Com palavra de flecha e de fleuma.


Marcelo Asth

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Poema: Inconstância

INCONSTÂNCIA

Eu não sei o quanto preciso
pra saber-me necessário.
É preciso ser diário
nas constatações de um sorriso.
Precisam te ver rasgando o rosto
pra chamarem de bom moço.
Mas quem vê meu alvoroço
quando perco em mim o gosto?
Quem me disse só amigo?
Tenho fáceis inseguranças
que me trazem inconstâncias
de ser corpo e meu abrigo.
Brigo assim também comigo,
esperando eu ser folganças,
nas minhas intemperanças,
insistência de perigo.
Usando meus ósculos escuros,
saio nas ruas de luz
vendo um sorriso nos muros
que concreto, não me induz.
Minhas formas de beijo cego
se dão nas minhas torpes esperanças
de alimentar o meu ego
com as suas inconstâncias.


Marcelo Asth 

Poema: Espiral

ESPIRAL

Perdi o valor do silêncio
pra murmurar minhas palavras tristes,
pois de som me consome
a significância de esperar ser.
Espiralar-me numa construção verticalizada,
tentando subir, subir, tentar respirar o céu.
Uma escada caracol me enrola o sentido.
Abalaustro-me no sossego de uma fraqueza que desiste.
Voluta de um capitel jônico,
estrutura de palavras de banzo não medido.
Não sei o que se passa em mim
mas passarei por mim
e identificarei na volúpia de me ver sozinho.
Estou subindo dando voltas,
indo do adro pro campanário ouvir os sinos.
Alço-me, levo-me pro alto, pé após passo.
E se chegar ao céu, ficarei por ali,
numa nuvem gris de chuva
esperando eu cair granizo.


Marcelo Asth

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Poema: Erupção

ERUPÇÃO

Quando em sonambulismo
nos bulinamos,
ebulimos, fervemos,
o sono vaporizamos.
Muvuca de bole-bole,
um vuco-vuco que rebole
dois vulcões de erupção mole;
crateras duras de jorro de lava.
Leva o rio de massa quente
a gente que passa e escorre no morro,
no fogo que fura a terra trilhada.
Tática tátil no corpo,
o sonho prossegue acordado,
explodindo poderosos
a força do magma lançado.


Marcelo Asth

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Poema: Asa

ASA

Certeza de que vôo alto,
disfarce cerúleo
de céu na face desmascarada.
Meu rosto respira vento
e o resto só movimento
de escalada,
na aérea trilha,
de alma lavada.

Bato quase asas de fada,
etérea maravilha
de calma levada.

O mundo é ninho
e eu procuro.
Não há solidão,
pois os sóis
me dão brasa.
Me curo.
E teu mundo,
imensidão
- asseguro -,
é minha casa.

Marcelo Asth

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poema: Momento


MOMENTO

Tarde estica,
o corpo alonga,
prolongamento.
A rosa abre,
o peito se expande,
grande aumento.
O disco se toca,
vida se musica.
Nosso momento.


Marcelo Asth

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poema: Ninho

NINHO

O riso, a rosa,
o ninho, o vinho.
O extraterrestre brinquedo,
a gente trocando carinho...
O canto, teu canto,
Vitrola, chão macio.
Não me sacio.
Não me sossego.
Você também não.
Dançamos no chão,
Se estabelecendo;
Tudo instalação.
Performáticos que somos.
Bailarinos da instante ação.
Estonteantemente, sim,
dançando numa só marcação. 



Marcelo Asth






Senti o perfume dessa rosa e desse vinho. Que cenário interessante. Ouvi tua música ali. "Dance, dance, dance, faça como Isadora". Faça como quem é feliz e dança numa só marcação. Tô feliz recebendo os poemas noturnos. Pensei em passar do "debaixo do beliche" pra "um baú". Que coloco sobre a cama de cima. São muitos poemas se somando e todos muito cheios de coisas boas.

Bloba