sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Poema: Colonial

Colonial

O café ferve, café torra e sobra borra. 
Palmeiras tremem no talvez de chuva grossa.
O vento vespertino onde quer que corra
Leva o cheiro do bule do fogo da roça.

Verão fazendo suar na fazenda.
Tépido rosto que acolhe a gota.
Verão soar mais tarde o som do grilo
E tudo aquilo que se colhe em brisa solta.

Soçobra a brisa no dente-de-leão.
Espalha a leve nuvem branca.
Só sobra a lisa haste no chão.
Espelha o olhar da moça na varanda.

O casarão onde o tempo não entra
Abre a boca na janela com cortina.
A parca luz no lusco fusco se sustenta.
Acolhe um bafo o cangote da menina.

Na paisagem um cavalo cansado.
Não se vê o cansaço do escravo do casario.
Da varanda a moça cansa na sombra mansa do telhado.  
Ali perto corre sempre o mesmo rio. 

Marcelo Asth

Poema: O Poeta e a Lua

O POETA E A LUA

A Lua se entrega como uma hóstia branca 
em comunhão com o mundo, 
beleza eucarística do Poeta. 
É partilha ímpar da natureza, 
o pão que alimenta o sonho dos pobres. 
O céu para a Lua é púlpito, 
sobe em esplendor em seu halo. 
A Lua de que falo se entrega de súbito e é divina, 
é sacra em decúbito, 
posta em seu altar, 
missa noturna.
A Lua se entrega.
É nela que se encontram os versos que o Poeta busca. 
Rochosa bola redonda,
brusca, bela, branca e envolvente. 
É a Lua que desperta o amor de toda a gente.
A Lua se entrega como um farol,
pequeno refletor do nosso palco.
Rouba o brilho do sol e pinta o mundo de prata, 
em fino talco.
O Poeta, agora, é quem se entrega. 
Lucubrador, divide a dor que nele existe. 
O Poeta é triste.
Sai à noite em busca de sonhos. 
Olha-se em seu grande espelho, 
lâmpada no céu, 
lucivéu
e pede um conselho.
A Lua se entrega, se abre,
como a rosa branca de mil pétalas,
num segundo.
A Lua divide com o Poeta, 
lá, bem em cima, 
no cimo do mundo, 
o sumo da poesia, 
a soma dos versos que ele pedia:
inspiração para a vida.

(2004)
Marcelo Asth

Poema: Engenharia



ENGENHARIA

Removendo o entulho
da tua desconstrução,
fica liso seu terreno renovado.
Eu invado,
engenheiro da tua motivação,
construindo nosso novo endereço.
Arquiteto nosso chão e nosso teto
e edifico as paredes 
que tapam toda a estrutura.
Nosso andar,
pelo andar da nossa história,
é o mais alto -
tem boa vista pra olhar dessa altura.
E lá embaixo
nossa base
ainda é montada dia a dia,
com concreto e com algum sonho
da mais hábil engenharia.

Marcelo Asth

Poema: Metrô


METRÔ

Os seus olhos tem uns ímãs
Que são incompreensivos.
Se arrastam pelos ferros
de outros trilhos.
No metrô,
de metro em metro
se acoplam num vagão
e de mim se esquecem
os seus olhos.
E passeiam pelo vão
entre o trem e a plataforma
e me informam
o perigo de uma outra colisão.
Vão olhando magnéticos
alguém sentado ali -
e eu querendo chegar 
em tua estação.
Os seus olhos de ímã
não reparam se estou são
e passeiam vagarosos 
no vagão.

Marcelo Asth

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Poema: Maré

MARÉ

Quando a gente se encontra 
nada nada contra a nossa maré, 
tudo é uma imensa onda que vai 
onde a gente quer.
E se não dá pé no mar,
a gente nada e não morre na praia.
A gente tudo é essa água toda,
que não pára de bater, de refrescar, de fazer som.
E nessa ondulação que vem do vento,
a massa d'água se distribui
E vai arrastando espuma
prum encontro na praia noturna.
No fluxo, o afluxo puxa a gente em corrente
e a gente se entrega no sal e na água. 
Ficamos à deriva, 
nos feitios enrolados
de nossas vagas marítimas.

Marcelo Asth

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Poema: Ver

VER

Abrindo os olhos para dentro
Vou entendendo que o problema é todo meu,
Não ser como deveria,
Adequado ao que desejo.
Pois olhando para fora
Vou entendendo o que de mim aflora.
Ser como eu não queria,
Arrastado atrás do que não vejo.


Marcelo Asth

Marchinha Carnavalesca Carregada de Ciúme

MARCHINHA CARNAVALESCA 
CARREGADA DE CIÚME

Eu sempre quis fazer 
um bom escândalo
de novela,
tocar fogo no barraco,
naufragar o nosso barco
e rasgar toda a vela.
Sempre quis que o meu ciúme
encontrasse um bom perfume
na lapela,
pra poder jogar minha ira,
descontar a ziguizira
em querela.

Você pode não dar motivos claros,
mas que você dá, dá sim.
Quem foi?
Quem foi?
Quem foi que te deu um alô no show?
Fui eu?
Fui eu?
Não foi.
Pois agora dou-me adeus.

Marcelo Asth