segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011



ZEBRA


Quando luz surge na sombra
quando o corte porta a luz
secciona iluminado
um feixe aceso e outro desligado
a parede reflete a faixa indecisa
decide incisar meio iluminada
divide-se incisiva no escuro
a réstia penetra a brecha e o furo
e beija o resto da parede, projetando o muro
o corpo opaco intercepta a claridade com apuro
voraz diagonalizada na tez que se faz zebra
sombra que desmaia a luz na lombra
rasgo que conduz o sol que engasgo
raio que pinta a ponta em pretume
de repente se passa num pente o lume
ilustra listras preto-e-branco e se resume

Marcelo Asth

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

DIZ

Diz pra mim se você me espreitava sem medo,
Diz pra mim se você me esperava tão cedo,
Diz que assim eu matava sua sede,
Diz que o embalo era bom em minha rede.
Diz que a gente queria sentir.
Se ressente se a gente mentir.
Mas você, por favor, se disser, não me mente.
Deixa o rio correr em corrente,
Deixa a chuva do céu em torrente,
Deixa a boca dizer tua palavra
Pra eu saber que por mim você sempre esperava.

Eu queria ser sempre profundo,
Eu queria ser pra você todo o mundo,
Mas querer ser assim é demasiado estranho.
Eu queria entrar em toda tua entranha
Pra ver se me soma na mudança que ganha.
Eu queria ser mais que teu sonho,
uma realidade de alegria tamanha. 
Eu queria que eu fosse a sua loucura
Pra saber se meu peito de hospício te atura.  

Diz pra mim se me quer pro futuro
Que assim me preparo pra ver se me aturo,
Me embalo em presente pra abrir mais pra frente.
Diz pra mim que a gente se sente.
Diz num verso que eu era desejo,
Diz intenso que eu era solução,
Diz no ouvido que eu era um cortejo,
Um ensejo, gracejo, mil vezes beijo
E não solda no furo da solidão. 

Marcelo Asth

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Poema: Submersão


SUBMERSÃO

Um vento que bate no poço do ouvido
Adentra o interior íntimo
E varre por dentro toda a bagunça,
Afungentando o que é ínfimo,
Fazendo de dança toda a pujança
Que infiltra como água.
O nosso amor é um sussurro manso,
Um remanso de água que empoça,
Onde fazemos tudo que possa
Fazer em nossa submersão.
Um açude, um manancial,
Todo receptáculo que se preencha de nós.
A gente nada, a gente tudo,
Festiva-se como em entrudo,
Aguados de carnaval.
Nosso amor se faz oceano
E banha a praia que em você espreito,
Sendo toda a espuma que borbulha
No ensejo do nosso desejo de água e fagulha.


Marcelo Asth

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Poema: Provérbio


PROVÉRBIO

Para boa palavra,
Meio entendedor basta.
Quanto mais ando por perto,
Mas minha sombra se afasta.

Vejo um túnel no fim da luz
Por onde sigo de olhos abertos.
Sinto um sapato na minha pedra -
Ele se perde nos piores apertos.

No aperto e no amigo se conhece o perigo
Mas antes acompanhado que mal só
E quem é, avisa amigo -
Já dizia à minha avó.

Ao meu lado segue o vento,
Antes nunca do que tarde.
O remédio é o melhor tempo
E sempre o que cura arde.

Digo com quem ando
pra você me dizer quem sou.
Quem sabe quer perguntar.
Por isso pergunto onde estou.

Não me encontro no caminho
E não enxergo nem o escuro.
Em terra de rei, quem tem olho é cego
E o velho morreu de seguro.

A bezerra pensou na minha morte
E ficou bem transtornada.
Sou bravo, sou forte, sou sul, não sou norte.
Sigo com a bússola desinformada.

A alma é o segredo do negócio,
Por isso vivo me doando,
Me doendo, me andando,
Trabalhando o meu ócio. 

Os enganos aparentam
E a gente se perde na estrada.
As subidas que as montanhas apresentam
Movem a fé em descidas pro nada.

Longe se vai ao devagar,
Longínquo se divagando em si.
Os primeiros são sempre os últimos 
E ri por último quem pior ri.

Com muito siso e pouco riso,
indeciso espero a primavera.
No alto do topo eu piso -
Quem alcança sempre espera.

De bons infernos as intenções estão cheias.
O pensamento se bifurca em tristeza e alegria.
Há bens que vem para males.
Nada como um outro após o dia.

Deus entorta por linhas escritas.
Vou por listras e pautas me escrevendo,
mas as letras tremem e entortam aflitas
na caligrafia que não mais entendo.

Marcelo Asth

sábado, 29 de janeiro de 2011

Poema: Místico

MÍSTICO

Ao me despir
ao seu dispôr
me estico no tempo
sem paralizar.
Díspares corpos,
místico par,
disputando beijos,
faltando o ar.
Simulo pecados
nada dissimulados,
desejos entregues
em vários pedaços.
E eu inteiro ali,
caça presa em laços.
Ao seu dispôr
ao me despir,
você rege o corpo
e me desnuda mais.
Mistura mística que muda
todo o silêncio nos gemidos tais
Interpelando minha figura pelada
com sussurros provocantes de paz. 

Marcelo Asth


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

História Infantil em versos: O Passarinho e a Minhoca

O Passarinho e a Minhoca

Onde o rio desemboca,
Onde a boca desenrio,
Anelídeo faz a toca
E o bico toca o pio.

Na tribo da alta oca
Morava um Passarinho
Que era amigo da Minhoca
Que almejava um ninho.

Passarinho que come pedra
É amigo de minhoca.
Voa sempre mais pesado,
Desejando ver pipoca
Pra comer ao invés de pedra...
Ou raiz de mandioca.

Ele é bobo, voa baixo,
Cabisbaixa asa coroca...

- Boa tarde, Passarinho!
- diz feliz Dona Minhoca -
Quero morar no teu ninho.
Vem você pra minha toca.

Passarinho quase ao chão,
Com o pedido da troca,
Pensa logo na decisão
E diz cansado à Minhoca:

- Não consigo mais voar
Ao meu ninho... aceito a troca.
Fiz o meu ninho com luxo
Com a fofa linha da roca
Pra construir o meu larzinho,
Pra comer muita paçoca...
Só vi pedras no caminho
E como tudo o bico emboca
Fui ficando pesadinho
Com a miséria dessa roça.
E agradeço com carinho
Sua proposta, tá, Minhoca?

Minhoca toda altiva,
Saindo de sua toca,
Diz adeus solene e viva
(nas amigas dá bitoca).

- Vou pra minha cobertura
No alto do teto da oca.
Lá Passarinho assegura
Que a vista até desfoca
Com o sol que como pintura
Dá o toque que retoca.
Sair de um subsolo
Onde o sol no solo nem toca
E subir um pouco na vida
É o que toda minhoca foca.

Passarinho não dá adeus,
Sua asa pesa e choca...
Os que o vêem pedem a Deus
Pra quebrar toda pedroca
Que nos intestinos seus
Passarinho assim estoca.

Mas em vão clamam os pios...
Passarinho se entoca.
Vai pra dentro em arrepios,
Enterrando-se na toca.

Lá de cima a Minhoca,
Luxuosa e deslumbrada
Nem vê que na sua toca
Ela vivia mais fechada.

Ela, de sua fachada,
Entre as linhas fofas da roca,
Olha o sol e a passarada,
Mas nem um pouco se toca
Que os outros não são camaradas
Como ela aqui se coloca.

Os índios daquela oca
Saíram da rede em alvoroço
Ouvindo a música que toca
Quando ave disputa almoço.

Não viram a triste e finoca
Se despedaçando em isca,
Mas ouviram da minhoca:
- Quem arrisca não petisca!
Sonhava com o alto da oca,
Onde o Sol a luz rabisca.
É o que toda minhoca foca
Quando na toca chuvisca...

Se debate, bate e soca
A traidora do amigo.
Foi trocar o seu abrigo...
Também deu-se mal na troca.

Antes o Passarinho
Tivesse papado a dondoca...
Tinha levado ela ao ninho
Calada no bico que emboca.

Amigo grande o Passarinho,
Que na falta de pipoca,
Respeitou-a com carinho,
Papando pedrinha e pedroca.

E hoje na tribo da oca
Há um ditado que assim medra:
Passarinho que come pedra
É amigo de minhoca.

Marcelo Asth

Poema: Colonial

Colonial

O café ferve, café torra e sobra borra. 
Palmeiras tremem no talvez de chuva grossa.
O vento vespertino onde quer que corra
Leva o cheiro do bule do fogo da roça.

Verão fazendo suar na fazenda.
Tépido rosto que acolhe a gota.
Verão soar mais tarde o som do grilo
E tudo aquilo que se colhe em brisa solta.

Soçobra a brisa no dente-de-leão.
Espalha a leve nuvem branca.
Só sobra a lisa haste no chão.
Espelha o olhar da moça na varanda.

O casarão onde o tempo não entra
Abre a boca na janela com cortina.
A parca luz no lusco fusco se sustenta.
Acolhe um bafo o cangote da menina.

Na paisagem um cavalo cansado.
Não se vê o cansaço do escravo do casario.
Da varanda a moça cansa na sombra mansa do telhado.  
Ali perto corre sempre o mesmo rio. 

Marcelo Asth