sábado, 19 de março de 2011

Comunicado de Bloba

É estranho receber poemas por debaixo da porta. Mas o que é mais estranho, e que acontece agora comigo, é deixar que o estranho se torne comum, que a carta secreta e mágica pareça um envelope postal. Mas a caixa de correio não é debaixo da minha porta! 

No momento, a tranquilidade do que é estranho já se instalou. Nem estranho é mais. Agora já se tornou uma prática mais distante. Nem recebo mais todos os dias, como antes. 

Vim aqui pra dizer que além dos poemas de Marcelo Asth por debaixo da porta e os poemas de Dinorah Lima dentro do forno (que foram poucos), agora a cama de cima do beliche fica desarrumada, quando eu acordo. O feitio de um corpo que acaba de acordar, a impressão do peso de uma pessoa que dormiu ali. Fico pensando se meu irmão León voltou. Seu espírito deve trazer os poemas.

Sem mais,
Bloba

Peoma: A Estrela e o Vagalume

A ESTRELA E O VAGALUME

É uma coisa de estrela
que pisca o pó neon estelar
e consome o universo num abraço.
Astronauta vagalume
assemelhando ao que lampeja
interrupto.
Em tempo rapta a luz
o noctiluz vagando, se apaixona.
E sobe lento pra alcançar o alto céu,
incansável em hipnose se ludibria,
não sabendo se a luz que brilha
se indecide por ser um pouco de noite e um pouco de dia.

Marcelo Asth 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poema: Leito

LEITO

O morro se veste de névoa
e eu me dispo em prazer.
A cabeça em teu peito,
me ajeito no leito,
com jeito de me oferecer.
A noite nos cobre,
envolve em seu manto
e minhas mãos descobrem
com tato o contato do corpo em cada canto.
Tua imagem noturna
rufulge tanto 
que meu olhar não foge
do seu encanto.

Pois se enfurna.


Marcelo Asth

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Poema: Espera

ESPERA

Estuporado a esperar,
estuprado na pausa,
parafraseando a dor do poeta.
Para se pôr como cometa,
rasgando o espaço,
queimando os gases
e reduzindo-se a pó.

Marcelo Asth

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011



ZEBRA


Quando luz surge na sombra
quando o corte porta a luz
secciona iluminado
um feixe aceso e outro desligado
a parede reflete a faixa indecisa
decide incisar meio iluminada
divide-se incisiva no escuro
a réstia penetra a brecha e o furo
e beija o resto da parede, projetando o muro
o corpo opaco intercepta a claridade com apuro
voraz diagonalizada na tez que se faz zebra
sombra que desmaia a luz na lombra
rasgo que conduz o sol que engasgo
raio que pinta a ponta em pretume
de repente se passa num pente o lume
ilustra listras preto-e-branco e se resume

Marcelo Asth

ver fotos azebradas

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

DIZ

Diz pra mim se você me espreitava sem medo,
Diz pra mim se você me esperava tão cedo,
Diz que assim eu matava sua sede,
Diz que o embalo era bom em minha rede.
Diz que a gente queria sentir.
Se ressente se a gente mentir.
Mas você, por favor, se disser, não me mente.
Deixa o rio correr em corrente,
Deixa a chuva do céu em torrente,
Deixa a boca dizer tua palavra
Pra eu saber que por mim você sempre esperava.

Eu queria ser sempre profundo,
Eu queria ser pra você todo o mundo,
Mas querer ser assim é demasiado estranho.
Eu queria entrar em toda tua entranha
Pra ver se me soma na mudança que ganha.
Eu queria ser mais que teu sonho,
uma realidade de alegria tamanha. 
Eu queria que eu fosse a sua loucura
Pra saber se meu peito de hospício te atura.  

Diz pra mim se me quer pro futuro
Que assim me preparo pra ver se me aturo,
Me embalo em presente pra abrir mais pra frente.
Diz pra mim que a gente se sente.
Diz num verso que eu era desejo,
Diz intenso que eu era solução,
Diz no ouvido que eu era um cortejo,
Um ensejo, gracejo, mil vezes beijo
E não solda no furo da solidão. 

Marcelo Asth

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Poema: Submersão


SUBMERSÃO

Um vento que bate no poço do ouvido
Adentra o interior íntimo
E varre por dentro toda a bagunça,
Afungentando o que é ínfimo,
Fazendo de dança toda a pujança
Que infiltra como água.
O nosso amor é um sussurro manso,
Um remanso de água que empoça,
Onde fazemos tudo que possa
Fazer em nossa submersão.
Um açude, um manancial,
Todo receptáculo que se preencha de nós.
A gente nada, a gente tudo,
Festiva-se como em entrudo,
Aguados de carnaval.
Nosso amor se faz oceano
E banha a praia que em você espreito,
Sendo toda a espuma que borbulha
No ensejo do nosso desejo de água e fagulha.


Marcelo Asth