sexta-feira, 1 de abril de 2011

Poema: Gravidade

GRAVIDADE

alguma coisa
derreada
o efeito de ter que

pútrido
o dia lotado de gente
e o enfado do fardo

gravidade
não flutuo
sou empurrado 
contra o solo.

Me esfolo.


León

Poema: Palavra

PALAVRA

vivo de juros.
prometo morrer lentamente.
há esse desejo de assistir a Terra de cima,
não de nuvem, em cima de um cometa.
um pé depois do outro
me levo a entender.
palavra palavra por palavra
não quero dizer nada
que não se diga palavra.

só elas irão me entender.


León


Poema: Ira Arrebol

IRA ARREBOL

parcimônia harmonia
olhar o arrebol quando morre o dia.
velório calendário -
me empurra em mutação.

eu nunca sou quem sou
(eu nunca sou),
eu devenho - 
devo adivinhar de onde venho.

animadvertir o ser advertido
por se divertir no perigo.

por dentro 
ira, 
ira, 
ira
e o desejo de explodir
dez mil mundos,
depois de comer o pão
plantando o trigo.

peremptória ousadia
a de matar o próprio abrigo
que se dizia alma, 
abrindo o umbigo.

sorrir
enganando a esperança...


León


Dessa vez não vieram os três poemas do meu irmão morto por dentro da embalagem de pão. Acreditava que pra cada manifestação de cada poeta que se corresponde comigo existisse um padrão de encaminhamento. Mas não. Dinorah Lima deve ter me esquecido. Ela deixou os poemas dentro do forno. Marcelo Asth traz por debaixo da porta do meu quarto. León na embalagem de pão. Não mais.
Agora os três últimos poemas de León estavam entre os papéis dentro da lareira. Prestes a serem comidos pelo fogo. Não sei há quanto tempo se encontravam por lá.
Foram dormir no beliche de cima.


León é morto. Marcelo Asth está vivo. Dinorah Lima, não sei.

Bloba. 

Poema: Lacuna

LACUNA

Lacuna vazia
completa-se no espaço.................................................................................

Contempla-se o nada
que não devolve sentido.

Por tentar olhar o que não se pode,
a mente fundiu e entrou em curto.

........................................................................................Longo demais o intervalo de espera.

É necessário não deixar vão.
Em vão, corro pra preencher.

Se faz o trabalho ineficiente,
do impossível que não posso ter.


León

Poema: O Peixe-voador salta para entender o ar

O PEIXE-VOADOR SALTA PARA ENTENDER O AR

não
vou falar
do meu
tormento,
que é feito de aço

não vou falar do meu passo
que é feito de tempo

vou falar do experimento
que no momento perpasso.

no entanto,
se eu tento,
por falar,
me descompasso.

fico sem o entendimento
do que fiz
e do que 
faço

não vou falar dos inventos
em que me traço,
não vou falar dos meus ventos
que nos cabelos enlaço.

vou falar dos meus detentos
pensamentos de embaraço.

não vou falar
se não tento;
eu vou falar
se me embaraço.

eu vou falar dos
sentimentos
e alentos
que trapaço.


León




domingo, 27 de março de 2011

Poema: Horizonte

HORIZONTE

tenaz e furioso
o horizonte que queima por ser visto
o instante é agora;
tem que se olhar -
um piscar é um titubeio.

galga por linhas obscuras
buscando sentido de busca
frívolas maquiagens de ser
quem sou
quem é
quem espera?

não há motivo pro vexame de não me chamar.

se eu fosse coragem
morria.
de desespero
de ironia.

talvez por amar ser castrar a origem
pra se fundir a outra linha de tempo.
profícuo profundo
do abismo

não sei contar os minutos.

à exaltação um brinde:
é preciso admirar.

León


Depois de chorar por um dia inteiro, tomei a coragem de postar um poema de León. Ele por fim chegou a mim da mesma forma misteriosa que outros poetas se manifestam. Horizonte me fez olhar por mais de uma hora pela janela, com olhos baços. Em algum ponto se perderam. Perduraram. 
O poema chegou no verso do papel de pão com meus 6 pães franceses. Ao pegar o primeiro pão pra comer com a mortadela que também comprei, reconheci a letra de meu irmão por dentro do saco de papel fraco. Perdi o apetite, chorei e sorri ao mesmo tempo. Guardei o poema onde ele dormia: na cama de cima do beliche. Hoje não vou conseguir dormir.

Bloba.

Poema: Grito

GRITO

Podendo estourar 
a garganta gritando,
espalho o que a voz
não pode comedida.
Todo o amor que dá pra um vida
encontra sentido, 
manifestação.
Em festa que atesta
o que não dá pra sintetizar,
dou vazão ao que mais amo
explodindo o ar. 

Marcelo Asth