segunda-feira, 18 de abril de 2011

Poema: Rio

RIO

O nosso amor é um banho de rio
que, caudaloso, beija os pés da gente.
Gargalos, sumidouros e correntes
passam distantes das águas que guio.

Controlo o fluxo que já nos acolhe,
amanso do rio a força no leito.
Sou um corixo lento que em sede escolhe
que água engole pro fundo do peito.

Marcelo Asth

domingo, 17 de abril de 2011

Poema: Senso

SENSO

O que figura
Não entendo
A chama da vela queimando
O olor do incenso
E eu lendo.
Não há razão alguma
Pra fazer parte daqui.

O que não se configura
Jaz em mim
Entender o tempo
O desintendimento
No traço do desenho
Que atravessa o fim.

Iago Sanches



o poema de um dos lados da folha que pregou-se no espelho.

Bloba

Poema: Ceia

CEIA

a lua pendurada na linha
que divide o céu do mar
tem tudo nas mãos
na sutil divisão do mundo
quando as plêiades
e as anêmonas
dançam juntas
procurando devorá-la.

Iago Sanches


Iago Sanches se juntou aos meus poetas desesperados. Não sou editora. Não escolho poetas pra lançar livros. A quem e como aviso isso? 
Hoje fui tomar um banho pela manhã e ao olhar o espelho do banheiro, os dois poemas que ele me mandou se encontravam presos entre a moldura e o vidro que refletia, numa folha pautada. Um monte de letra estranha, embaralhada, sem sentido. Não dava pra entender. Como cada um dos poemas veio numa face da folha, ao tentar ler um que estava numa parte, olhei pro reflexo do espelho e lá estava o poema de trás, revelado. Foram os dois escritos de forma invertida. Divertido ele. Só ao olhar o espelho se vê a imagem. Precisa haver um reflexo para a reflexão.

Bloba.

sábado, 16 de abril de 2011

Poema: Quebrassílabo

QUEBRASSÍLABO


Parte 1

E pensar: amar a um, sendo dois.
Ou então, amar a dois, sendo um...
A sutil diferença que depois
Configura o amor de forma incomum.

E pra se viver de amor é preciso
Morrer de saudade na tua espera.
Assim meu vício carece de siso;
No que é difícil domar qualquer fera...

E nossos seres vão se amalgamando...
Dois corpos não ocupam um só lugar!
Confusos, dois corpos vão se amarrando
Buscando a téssera complementar.

Colidindo-nos, seres de elisão,
Nossa escansão torna-se necessária
Pra que possa dizer ao coração
Nosso ritmo em batida diária.

E se nós somos vogais semelhantes
Precisamos nesse verso da crase.
Mas se nós somos letras dissonantes
Somos elisão numa mesma frase.

O intrigante dessa necessidade
É querer rimar me formalizando.
Talvez um verso branco que me invade
Venha em liberdade se anunciando:


Parte 2

Quando quebro os decassílabos
Meu verso voa pra ser teu poema,
Livre e sem rimas ou regras de aglutinar.
Ficamos na espera
- pra entender a espera -,
E ficamos na saudade pra saudar o tempo.
Pra sentir sua falta e explodir num exato momento.
De quando abraçar.
Somos dois voando juntos,
Sem compromisso da métrica.
Apenas como versos soltos,
Conjuntos poetizando amor.


Marcelo Asth

domingo, 10 de abril de 2011

Poema: Motivo

MOTIVO

Que mistério na ponta da língua
não lambe a revelação de uma dimensão não descoberta...
uma pele inteira pinica.
Toda a pronúncia desses meus suspiros débeis
são sopros que em razão desalinham.

Teu sussurro, 30 decibéis.
Férteis.
Meus ouvidos se coçando de euforia.
O amor, não dá pra entender.
Fartos os pensamentos de peso sobre medidas.

Teu sorriso vem me soando catástrofe:
premedita abalos recorrentes;
minhas estruturas ficam rachadas
e pelas gretas entram todos os teus sons
me estuprando
sinfonia.

Se puder saber o porquê desse tudo
eu me recuso.


Marcelo Asth

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Poema: Seqüência

SEQÜÊNCIA

Perfila a seqüência numérica
que rege todo o universo.
Algum ritmo algoritmo que revele.
Tudo em nós é orquestrado -
sou a música indecifrável.

Notas, cifras, unidades de medida.

Quanto meço?
O quão peço pertencer
ao universo da vida?

Arquimedes Sampaio

Hoje acordei no mais pesado sono. Com fome, me dirigi à mesa pra fazer um café. Comecei a tostar um pão quando no cheiro de quase queimado se revelou mais um poema de Arquimedes Sampaio, que dormiu na torradeira. 

Bloba.

Poema: Natação

NATAÇÃO

Bater braços.
Nada.
Tudo o que me afoga no mar
me afaga.
O cansaço da ânsia desperta:
o ar no pulmão me aperta,
a distância do cais me aparta. 
O caos não quero mais.
Por nadar, a água está farta.
O pulmão que abra e feche
pra eu conseguir boiar!
Bóia no mar.
Habito o que em mim se mexe
e se espraia em meu habitat.
Morrer na praia não deixe.
Que o mar não está pra peixe,
que o peixe não está pra mar.

Marcelo Asth




Há duas madrugadas, na hora de dormir ouvi o arrastar do papel mais uma vez enunciando a chegada de poemas novos. Marcelo Asth. Li na mesma hora, com o tédio abrindo espaço sobre mim e sobre o beliche. Eu gostava muito do que lia dele, antigamente. Os poemas pararam de surpreender como no início. Tanto pelo conteúdo quanto pela rotina da fricção do envelope sob a porta. Gosto dos poemas de León, de Dinorah Lima e dos outros que vieram, não sei. Marcelo Asth está vivo, mas não sei se entra neste meu blog tão particular. Como ele chega a mim diretamente, invadindo a minha privacidade, tenho a liberdade de criticar, dizendo que seus versos são de bobas rimas, falsas angústias e pouca alegria. Falta ser profundo de verdade. Repito que gostava dos antigos. Estes novos trazem alguma coisa boa, eu sei. Mas não me agradam mais. Precisam de revolução.

Bloba