sábado, 25 de junho de 2011

Poema: Cobra

COBRA

Cuidado com a cobra
que te abraça.
Pode ser afeto, 
pode ser ameaça.

Faz fechar teus olhos.
Enquanto isso esmaga.
E com a língua bifurcada
lambe outra imagem que apaga.

Judith Fringer

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poema: Quadro

QUADRO

O corredor de quadros
meio paro, meio passo
olhar domesticado
pro lado de dentro

o que vejo é como um grito
faz perder sentido
quanto será que vai custar?
surpresa.

sai daqui, eco dos meus passos,
que meio ando, meio paro.
cada quadro
meu retrato
esmaecido, derretido
querendo estar parado.

Wolf de Andrade

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Poema: Lumiar



LUMIAR
para Daniela Asth
A densidade da mata
fechada no verde intenso.
Meu coração bate como
uma carpa no rio gelado.
Essa lua que adentra
a cabana serrana
é a mesma que molha os olhos.
O movimento da água
na escura madrugada
se assemelha à gota vermelha
na veia cava.
Minha alma serenada
cava passos num chão de barro
e ressoa o frio.

Marcelo Asth

sábado, 14 de maio de 2011

Poema: Naufrágio

NAUFRÁGIO


Da forma lenta
que você me vê -
da mesma forma
que o sargaço me engole -
tenho três olhos,
duas bocas, solidão
e um pulmão
que pouco ar
talvez console.
Da forma pura
que me empurra
os teus sinais
é que segura
o teu jogo,
vai e vem.
Sou o teu barco
à deriva,
solto derivando
em teu desdém.
Tantos naufrágios
vêm águas elucidar.
Das formas breves
que me levam a afogar.
Este sinistro abraço
quebra os silêncios
e vai quebrando os cascos
de embarcações.
Todo o devir
que acaba a vir
me revirando,
é um sufrágio
em águas tortas,
mornas, mansas,
teu remanso de monções.

León

domingo, 8 de maio de 2011

Poema: Religião


RELIGIÃO

Vomitar nos vãos das catedrais
soluços impregnados de espanto,
espiando o expiar dos santos
em milhares de contas de rosários.

Um terço do que sou está rindo de mim.
Nenhuma confissão pode vazar minh'alma;
distribuo a hóstia dos sacrilégios
e o vinho tinto das desgraças.

Minhas preces não chegam a Deus -
colidem na abóbada e despencam no altar.
O alto campanário é triste como um purgatório
e tão irrisório pros céus é o meu penar.

Dinorah Lima

sábado, 7 de maio de 2011

Borboletário

BORBOLETÁRIO

serei desta terra enquanto borboletas baterem suas películas vitrais à procura da luz que aquece meu casulo. E quando amanhecer o dia outro num rasgo de sol ao romper da aurora, direi que, andarilho poente, resgatarei o fio que deixei na teia de uma outra terra, que é a terra do agora.

Marcelo Asth

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Poema: Estradas

ESTRADAS

Eu tenho ar, direção, vidros e travas
e estradas com vivos olhos-de-gato.
Perco meus freios numa curva fechada
e capoto, capoto, capoto em abismos.

Quem se pôr na minha frente
que se atropele trôpego,
pois meus faróis estão apagados
nas curvas noturnas e serranas de mim.

Marcelo Asth