sábado, 9 de julho de 2011

Poema: Bueiro

BUEIRO



O poema explode o dia
Como a tampa de um bueiro,
Por não saber de silêncio,
Derrubando o sigilo.

Estrondo de parar trânsito,
Cachão que espoca vida,
Palavras a mais que se espalham.
Proeza provém da poesia.

É próprio fazer este alarde.
Como se aplica, é estúrdia.
Somente porque ele respira.
Semente porque ele é balbúrdia.

Vazão com toda a sua força -
Verão do bueiro estilhaços.
Manchete que jorra a farra
Diante de olhos tão baços.

Falando do nunca falado,
O poema se arremessa
Rompendo com todo o sentido -
Perigo de quem vive a pressa.

Altamente corrosivo,
Chovendo na rua repleta
Sobre os chapéus que protegem,
Como uma chuva de setas.

Imprime naquele que oprime,
Margeia as linhas do lado,
Esfola com tanta coragem,
Mitiga o cristalizado.

Esmola pro oprimido.
Audácia pro conformado.
Escola pro dividido.
Certeza pro descolado.

O poema tudo desnuda
Em sua natureza pelada,
De mostrar o que está escondido
Dentro deste “fazer nada”.

O poema explode a tampa -
Grande parte está por baixo.
Estampa o olhar que espanta
O marajá e o populacho.

Todos vêem o que incomoda.
Na moda da mídia, a notícia.
Nos centros, nas bordas, na roda,
Ataca a esbórnia política.

Cada bueiro que explode
Muita coisa evidencia.
Quem não vê que se acomode
No que pode a hipocrisia.

Assim sempre, assim sendo,
Toda vez que sigo andando
Estouro um bueiro na rua
Quando me pego pensando. 

Marcelo Asth

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Poema: Eclipse

ECLIPSE

Eu estava em eclipse
Mirando teu sol em minha sombra,
Alinhado ao teu campo de atração.
Teu corpo celeste
Brincando de se esconder no meu
Justapôs-se camada
Na montagem de uma imagem
Em comunhão sideral.

Marcelo Asth

Haicai: Arrebol

ARREBOL

Tarde colorida
que em arrebol se finda -
aí cai o sol.

Marcelo Asth

Poema: Fragmento

FRAGMENTO

Rompem as portas.
Sopra o tempo.
O velho tem poesia
Pra contemporizar.
Conversa com o tempo
Em telepatia -
O velho se completa
Ao se contemplar.

Abrem as comportas.
Jorra a memória.
O velho é a experiência
De se resgatar.
Com verso no tempo
Da reminiscência -
O velho se desvenda
Ao se reinventar.

Alisam as barbas.
Escorre a história.
O velho é a saudade
Ao tempo saudar.
Futuro presente passado,
O antes-até-agora invade -
O velho espera na esfera
Ao se fragmentar.

Marcelo Asth

sábado, 25 de junho de 2011

Poema: Cobra

COBRA

Cuidado com a cobra
que te abraça.
Pode ser afeto, 
pode ser ameaça.

Faz fechar teus olhos.
Enquanto isso esmaga.
E com a língua bifurcada
lambe outra imagem que apaga.

Judith Fringer

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poema: Quadro

QUADRO

O corredor de quadros
meio paro, meio passo
olhar domesticado
pro lado de dentro

o que vejo é como um grito
faz perder sentido
quanto será que vai custar?
surpresa.

sai daqui, eco dos meus passos,
que meio ando, meio paro.
cada quadro
meu retrato
esmaecido, derretido
querendo estar parado.

Wolf de Andrade

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Poema: Lumiar



LUMIAR
para Daniela Asth
A densidade da mata
fechada no verde intenso.
Meu coração bate como
uma carpa no rio gelado.
Essa lua que adentra
a cabana serrana
é a mesma que molha os olhos.
O movimento da água
na escura madrugada
se assemelha à gota vermelha
na veia cava.
Minha alma serenada
cava passos num chão de barro
e ressoa o frio.

Marcelo Asth