segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Soneto: Anel


ANEL

O anel que tu me deste era frágil -
Destas vitrais estruturas de areia -,
Burilado com cinzel pouco ágil
E em fogo casto que não incendeia.

Desfez-se breve em cacos entre os dedos
Machucando a mão que antes era afago,
Ferindo o brio dos meus pobres medos,
Marcando o peito num terrível estrago.

Contudo, a paixão com o tempo encerra:
Todo princípio merece seu fim.
Melhor a paz em mim que em dois a guerra...

Mesmo assim, indago sem esperança:
Por que me deste então um anel ruim,
Se eu só queria a ti em aliança?


León Bloba

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poema: Auto-combustão

AUTO-COMBUSTÃO

Eu me possuo vermelho
Tanta tirania
Meu coração dispara
Tiro à queima-roupa
Mas tudo queima
Meia veia teima
E não me poupa

Eu me torturo centelha
Presa no paiol
A plantação toda em volta
Se revolta em jogo
Mas nada aquece
Esquece, cresce, tece
Ateia o fogo

Eu me explodo aparelho
De frouxo botão
Um homem-bomba-brinquedo
Feito estupidez
Que se escangalha
Calha, tralha, falha
Em sua nudez

Eu me provoco espelho
Auto-combustão
Que minha boca incendeia
Como punição
Mas tudo pulsa
fuça, avulsa, expulsa
vira carvão.

Marcelo Asth

Poema: Olimpo

OLIMPO
para Rafael Rodrigues

A Morte de Jacinto - Jean Broc

Me pegou pelos seus braços
Como bebê embalado,
Ovelha desnovelada,
Como bicho em sacrifício.
Não derramou o meu sangue,
Mas o fez em ebulição.
Meus sentidos em acordo,
Desacordados em adoração...
Me levou ao alto templo,
Num tempo de devoção.
Num cume de nuvens turvas,
Me encaminhou pelas curvas,
Doido de alucinação.
Oferenda para a chuva
Em ditirâmbicos ruídos.
Psique e seu Cupido
Na doce festa da uva:
Meu carinho ele bebeu.
E ali, nos braços teus,
Me vi na alma de um deus.
E como presa na flecha
de Artemisa - acredite -,
Me vi no colo de Apolo
E nos seios de Afrodite.
Em tanto zonzar e delírio,
Nos ventos de seus rituais,
Morri como Jacinto, num lírio,
Formoso e inscrito de ais.

Marcelo Asth

sábado, 23 de julho de 2011

Poema: Sísifo

SÍSIFO



O herói absurdo
Empurra sua alma no mundo,
Rolando deserta de sonho,
Sedenta de algum sentido.

Ao mito sou remetido.

Sabendo-se nada -
Jamais tudo tendo sido -,
Busca a tarefa árdua
Que nunca se torna completa.
No ritmo ilógico e ágil,
Escasso é o tempo da meta.

Remeto o fato ao mito.

Se a alma tem peso de pedra,
Cada passo é infinito.
Toda distância que medra
São ganho e perda em conflito.
A vida dissolve no esforço
E inútil se perde no atrito.
Rolando resolve o esboço
Do paradoxo vazio.

Se cansa o que é difícil,
Se o topo é interdito,
Tentar é um verbo de vício
Em vão no caminho do rito.

Por fim, retorno ao início.
Remeto ao mito – repito.

Leva a alma o herói aflito.
No ímpeto mágico, o suplício:
Traduz-se no destino trágico
De rolar do precipício.

León Bloba

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Poema: Somos

SOMOS
para Rafael Rodrigues

Vamos ocupar de vez, amor
Todas as lacunas que vierem mais
Somos bem mais velhos que os imortais
Somos testemunhas dos oráculos astrais

Penso em você em vez de amor
Todas essas vezes em que olho para trás
Somos bem maiores que os astros siderais
Fomos nomeados deuses mais que universais

Quero derrubar o mundo, amor
Todas as colunas dos palácios dos reis tais
Somos mais história que todos os ancestrais
Temos mil milênios antes dos orientais

Peço para transformar, amor
Todas as loucuras que no mundo são banais
Somos liberdade bem acima de ideais
Somos carne e unha, pêlo, apelo, aperto e paz

Marcelo Asth

sábado, 16 de julho de 2011

Poema: Sombras

SOMBRAS

Vultos que escorrem
se debandando,
brincam de sombras
se escondendo.

E por aqui rodopiam velozes.
Cegos morcegos sugam madrugada.
E todo o mistério das frutas.

Avantesmas em trajeto insólito,
bebem do suco que cai das estrelas.
Zarpam objetivos ocos,
na sonolência ultrasônica,
topando cortantes, aflitos,
vãos dos galhos pretos, disformes.

Donos do céu da meia-noite;
filhos da lua - que ainda dorme.

León Bloba 

Lembrança de León - desabafo

Meu irmão León mandou-me este poema sertanejo, parecido com cordel - abaixo postado. Ele, antes de sua morte, passou uns tempos por lá, torrando a pele no sol e passando necessidade. Ameaçaram ele de morte, mas ela veio por conta própria, sem dar ouvido à ameaça. Ele nunca tinha me falado sobre sua viagem ao nordeste do Brasil, mas agora, ao receber esse poema, deu pra sentir um pouco o que ele retrata. Talvez ele tenha outros sobre essa experiência. Espero que León esteja me contando tudo o que não me contou em vida. Gosto de decifrá-lo e, através dos poemas, eu consigo estabelecer uma proximidade maior com meu irmão.
León, poeta morto, irmão misterioso, guardo este e os outros seus (e de todos os que me aparecem do nada) no beliche em que dormias.

Será que é você, León, que traz os poemas dos outros poetas até a mim? Sei de Marcelo, que é vivo (não quero contato com ele, tenho minhas razões) e dos outros (mais esporádicos - ver no blog) que não sei se já se foram. Mas o fato de você escolher certas letras de certos alguéns quer me dizer algo que é grandioso. Fico aqui tentando decifrar o teu mistério.

Você, León, não é só lembrança. É uma saudade que se faz febril, pois eu fico inventando memórias (que às vezes duvido se são reais ou projeções) de quando éramos irmãos. Talvez só hoje eu perceba sua grandiosidade. Coisa de estrela que pisca.

Você me mostra que a vida é breve, mas que mesmo depois dela, a poesia continua chegando.

Eu durmo aqui na cama de baixo, recebendo poemas, com medo, com ansiedade, com raiva, com alegria... depende muito do meu dia.

Não me sinto capaz de revelar os teus enigmas. Mesmo assim, em meio a tanta loucura, sinto-me com mais lucidez por entender que o mundo não é coisa pra ser entendida.

Com saudade e lembrança,
Bloba