sábado, 20 de agosto de 2011

Poema: Soma


SOMA

Nosso amor tem brilho –
Deste que trazem os grandes astros.
Amo, pois que, ao senti-lo,
Quando a dois, somente cintilo.
E me basto.

E pensar: amar a um, sendo dois.
Ou então: amar a dois, sendo um.
Que conto fator em comum
Em evidência, agora e depois...

Que somos sonho, soma, alma,
Amálgama, riso, rizoma,
Redoma, gozo e calma –
Carinho ímpar de um par.

Quando um abraço nos toma,
Em laços e em nós nos afaga,
O encontro é o que interessa
Pra téssera complementar.

Fico surpreso enquanto
Preso em seu braço,
Pois não tem preço
O seu abraço que eu prezo.
Um meio, um quarto, um terço,
Inteiro parece que rezo
Quando em você me reparto.

Seu sussurro, trinta decibéis...
Férteis de poesia.
No escuro oram-me fiéis
E o poço do ouvido arrepia –
Se eu criasse amor nos poros,
Suaria.

E se o suor na pele é sal
E sede continua tendo,
Se brasa quando junta ao fogo,
Quente continua sendo,
Se água pinga no rio
E o corixo ainda escorrendo,
Eu em você somos brilho,
Corisco nos astros crescendo...

Eu durmo sob o dossel
De seus cachos negros,
Querendo suas noites a mais.
Do céu tudo é segredo:
Gigantes siderais espelhos,
Testemunhas de sinais.
Que somos soma, carne e unha,
Pêlo, apelo, aperto e paz...

Marcelo Asth

domingo, 14 de agosto de 2011

Poema: Acalanto


ACALANTO
a Borlido Elias, meu pai
Boa noite.
Boi da cara preta.
E a voz soava grossa
Feito trovão.
E era o abrigo da noite.
E era o hipnótico ingresso.
E era a fronteira dos sonhos
Nos borbotões de minha infância.

Canto o acalanto do tempo.
A boca secreta do espelho
Verte o alento da memória:
Não sei de que sonho saímos...
De que trecho da história?
Ralenta a cantiga nossa
Como escansão mastigada...

Seu cabelo tingiu-se de preto
Como a noite e a cara do boi.
Brincamos de pai-e-filho.
A panela de pressão
Chia cheia de domingos.
Ainda estamos antigos.
O ainda não sei foi...

Subo em suas costas
De cavalo de brinquedo
E léguas andamos juntos
Cruzando frios relevos,
Sem ter medo das caretas
Das montanhas de Friburgo.
O galope soa forte,
Grosso feito trovão.
Ralento a nossa cantiga.
Você segura minha mão.

E antes que seu filho durma –
E que você durma também –
Lá vamos nós seguir outros sonhos,
Cantando pra bem mais além...


Marcelo Asth

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Soneto: Anel


ANEL

O anel que tu me deste era frágil -
Destas vitrais estruturas de areia -,
Burilado com cinzel pouco ágil
E em fogo casto que não incendeia.

Desfez-se breve em cacos entre os dedos
Machucando a mão que antes era afago,
Ferindo o brio dos meus pobres medos,
Marcando o peito num terrível estrago.

Contudo, a paixão com o tempo encerra:
Todo princípio merece seu fim.
Melhor a paz em mim que em dois a guerra...

Mesmo assim, indago sem esperança:
Por que me deste então um anel ruim,
Se eu só queria a ti em aliança?


León Bloba

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poema: Auto-combustão

AUTO-COMBUSTÃO

Eu me possuo vermelho
Tanta tirania
Meu coração dispara
Tiro à queima-roupa
Mas tudo queima
Meia veia teima
E não me poupa

Eu me torturo centelha
Presa no paiol
A plantação toda em volta
Se revolta em jogo
Mas nada aquece
Esquece, cresce, tece
Ateia o fogo

Eu me explodo aparelho
De frouxo botão
Um homem-bomba-brinquedo
Feito estupidez
Que se escangalha
Calha, tralha, falha
Em sua nudez

Eu me provoco espelho
Auto-combustão
Que minha boca incendeia
Como punição
Mas tudo pulsa
fuça, avulsa, expulsa
vira carvão.

Marcelo Asth

Poema: Olimpo

OLIMPO
para Rafael Rodrigues

A Morte de Jacinto - Jean Broc

Me pegou pelos seus braços
Como bebê embalado,
Ovelha desnovelada,
Como bicho em sacrifício.
Não derramou o meu sangue,
Mas o fez em ebulição.
Meus sentidos em acordo,
Desacordados em adoração...
Me levou ao alto templo,
Num tempo de devoção.
Num cume de nuvens turvas,
Me encaminhou pelas curvas,
Doido de alucinação.
Oferenda para a chuva
Em ditirâmbicos ruídos.
Psique e seu Cupido
Na doce festa da uva:
Meu carinho ele bebeu.
E ali, nos braços teus,
Me vi na alma de um deus.
E como presa na flecha
de Artemisa - acredite -,
Me vi no colo de Apolo
E nos seios de Afrodite.
Em tanto zonzar e delírio,
Nos ventos de seus rituais,
Morri como Jacinto, num lírio,
Formoso e inscrito de ais.

Marcelo Asth

sábado, 23 de julho de 2011

Poema: Sísifo

SÍSIFO



O herói absurdo
Empurra sua alma no mundo,
Rolando deserta de sonho,
Sedenta de algum sentido.

Ao mito sou remetido.

Sabendo-se nada -
Jamais tudo tendo sido -,
Busca a tarefa árdua
Que nunca se torna completa.
No ritmo ilógico e ágil,
Escasso é o tempo da meta.

Remeto o fato ao mito.

Se a alma tem peso de pedra,
Cada passo é infinito.
Toda distância que medra
São ganho e perda em conflito.
A vida dissolve no esforço
E inútil se perde no atrito.
Rolando resolve o esboço
Do paradoxo vazio.

Se cansa o que é difícil,
Se o topo é interdito,
Tentar é um verbo de vício
Em vão no caminho do rito.

Por fim, retorno ao início.
Remeto ao mito – repito.

Leva a alma o herói aflito.
No ímpeto mágico, o suplício:
Traduz-se no destino trágico
De rolar do precipício.

León Bloba

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Poema: Somos

SOMOS
para Rafael Rodrigues

Vamos ocupar de vez, amor
Todas as lacunas que vierem mais
Somos bem mais velhos que os imortais
Somos testemunhas dos oráculos astrais

Penso em você em vez de amor
Todas essas vezes em que olho para trás
Somos bem maiores que os astros siderais
Fomos nomeados deuses mais que universais

Quero derrubar o mundo, amor
Todas as colunas dos palácios dos reis tais
Somos mais história que todos os ancestrais
Temos mil milênios antes dos orientais

Peço para transformar, amor
Todas as loucuras que no mundo são banais
Somos liberdade bem acima de ideais
Somos carne e unha, pêlo, apelo, aperto e paz

Marcelo Asth