domingo, 13 de novembro de 2011

Poema: Desejo

DESEJO

Vem de si o desejo de troca.
Vende-se o desejo de ter.
Vinda, se o desejo é de volta.
Solta, se o desejo é de ser.
Vista-se do desejo que falta.
Flauta se o desejo é de ar.
Arme-se no desejo de escolta.
Ame-se no que salta o prazer.
Pauta, se o desejo é escrever.
Mata se o destino é morrer.

Marcelo Asth

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Poema: Cheia

CHEIA

aos amigos do Ocupa Rio - Cinelândia

Uma roda me renova
quando cheia inunda a praça
e a palavra me abraça -
ouço a minha própria voz.
Território ocupado:
o mundo é meu,
gira ao contrário
do que leva à aflição
que nos tonteia.
Mundo é nosso,
renovado.
Eu sou quem
está ao meu lado.
Se eu pulso, tudo pulsa,
a praça é a veia.
Do que tomba,
do que salta,
do que bomba
o que bombeia.
Liberdade é andar
no meio de um praça 
cheia.

Marcelo Asth

domingo, 6 de novembro de 2011

Poema: Floresta

FLORESTA

a floresta uiva em mim com todos os medos
e percorro trilhas falsas de um curupira astuto
as flores me salpicam dos poros como erros retomados
e essa baba de seiva grossa me escorre da boca
com um gosto indecifrável de madeira deliciosa
carnaúba, copaíba, jatobá, ibira, pau duro que brota
atraindo as abelhas profusas que me ardem em mel morno

sou essa salamandra da madrugada
nata que não entende nada da mata
corisca e probante do imenso nada
toda a folhagem é o medo uivando em sede
tudo o que trila na calada soturna
treme o interior num gozo ansioso e sereno


se existisse alegria no mundo
espocaria de tanto delírio preso.

Marcelo Asth

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Poema: Criação

CRIAÇÃO
 para Rafael


É possível que os relógios titubeiem,
Que os olhos estremeçam,
Que as pálpebras latejem
E que a íris se expanda como um buraco negro
No momento delirante em que você adentrar meu foco.
É possível que haja tanta expansão
Que o seu mundo seja sugado pro meu universo
E que façamos um neo-Big-Bang,
Implodamos toda a história
E recomecemos já um nada a ver com tudo isso
Já estabelecido.
É possível que anjos visitem o momento,
Pra relatar num registro ou cantar celestiais
A ousadia dos Deuses e o Amor demiurgo.
É possível que façamos nova gente,
Iniciemos o paradigma de sentir a nova era,
Resetemos toda a ignorância soberba que atrasa toda a esfera.
E certamente atravessaremos o tempo
Desmontando todo o peso das largas horas estendidas no tapete de uma solidão do que já era.

Marcelo Asth

Poema: Múmia

MÚMIA


Vendo aquelas múmias carcomidas,
Fibrilando memórias em cascas de identidade,
Percebi que meu mundo é outro.
O mundo é agora,
Um que adentra o tempo vertiginoso, anos-luz,
Sem que dê tempo ao pensamento
(este é lentidão)
De perceber que estamos múmias carcomidas
No pó das constelações.

León Bloba

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Poema: Roda da Desafortuna

RODA DA DESAFORTUNA

Eu sigo a moda dos errados,
eu giro a roda da desafortuna.
Eu faço a foda dos tarados,
eu meço a poda dos galhos quebrados.
Eu canto um verso calado
e o que me sobra é a surda alegria.
Eu faço votos que o passado
seja talvez a minha companhia.

Marcelo Asth

Poema: MIM

MIM

Por tanta porta roída,
tanto cupim.
Pra cada rota esquecida,
muito capim.
Pra cada voo assustado,
muito jardim.
Pra repousar o meu rosto,
pausa de mim.

León Bloba