sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Poema: Amálgama

PERISPÍRITO

Corpo e alma
amálgama
corpo em chama
gama a alma
clama
chama
química
que me queima
teima
funde espiritual

León Bloba

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Poema: Urubu



URUBU


Urubu, avoa daqui,
que eu canto brabo
a urucubaca bacana.
Urubu na espreita,
prepara tua tumba,
que bato macumba,
praguejo maleita.

Vai, urubu, avoa,
amor meu não é carniça.
É carne nobre, de primeira.
Não fica às moscas na xepa da feira.
Não fica à mostra pra quem quer que queira.
Ao Deus-dará, vitrine-lixão.

Amor meu é proteção.
Pra passarinho,
gaiola de ouro,
pio de carinho
e alpiste na mão.

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Urubu, voa bem alto -
ouve daqui meu despacho -
e prepara o sobressalto
na turbina do avião.

Marcelo Asth

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poema: Miragem

MIRAGEM

Ao sabor de minha miragem
perco minha âncora em teu mar
- deserto de ondas bravias -
sedenta do sal que enferruja e morde
toda a dureza e o peso de mim
(pois teu mar é um coração silencioso,
profundo de mistério).
Ilha de mar, percorro como gaivota planando
e todo o cerúleo, escuro, frio oceano
cabe em minúscia no meu olhar.

Marcelo Asth

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saí de Casa, Zabé da Loca

‎"Saí de casa pra beber água no mundo, quando vi, em um segundo, tinha um mar para nadar. Nada nadei, mar afora, mar adentro, só parei por um momento: comecei logo a rimar. Rima do boa eu ganhei em João Pessoa, ai ai ai que coisa boa, a ciranda me levar. Na maré-alta, maré-baixa, maré-cheia, se você não me aperreia, pego a onda e vou rodar. A onda, dentro da onda. Eu, dentro dela vendo o mundo a rodar. No vai-e-vem a vida passa ligeiro. Vou lá pro terreiro ver a onda passar. A onda, dentro da onda. Eu, dentro dela vendo o mundo a rodar. No vai-e-vem a vida passa ligeiro. Vou lá pro terreiro ver a onda passar."

Saí de Casa, Zabé da Loca

Poema: Velhicidade

VELHICIDADE


ver

Ele anda sondando
como um disco arranhando,
abrindo ideias estreitas
com sua força de Orixá
em máscara azul de um velho dragão -
e finge pegar fogo, aflito.
Nada me basta
e tudo me afasta:
horizonte não é sempre meta.
Por isso não me meto à besta,
de não me fazer festa
e sumir pelos ralos do rio
pra me escapar.

León Bloba

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poema: Singular

SINGULAR


Bicho que cria coragem
rói o próprio dente.
Toda imagem calada
é um som silente.
Homem que cria saudade
ama diferente.
Toda a glória solitária
é um sol poente.

León Bloba

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Poema: Quando um rosto rui

QUANDO UM ROSTO RUI

Tinha visto num espelho
um rosto largado,
amputado de um corpo
que não era meu.
Larguei de cara minha máscara,
mas sem rosto não me identifiquei.
Uma cara amarrada
a um pescoço.
E mais nada.
Não quis mais me reconhecer.
Deixei lá refletida
a refletir meu enigma,
pois eu quis me conhecer.

León Bloba