terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Poema: Ordem

ORDEM

Hoje a ordem é sorrir,
embora a máscara não caiba.
Todos escorrem saliva,
todo sentido é baba.
Hoje é questão de séquito,
sexo platônico coibido,
ritmo emplastrado em festa -
eu, convidado proibido,
atônito: o lugar me testa.
Tudo é a incrível força
que arrasta à arrebentação.
Enquanto isso, o sorriso alarga.

Minha máscara me diz que não.

León Bloba

Poema: Bahia

BAHIA


Foto: Rafael Rodriguez

Bahia,
seu retrato se fecha
na melancolia
escorrida nos prédios -
camadas -,
na luz da ilha ao longe
tão longa e derramada,
neste barco que se estira
na água escura
depois do pôr-do-sol.
Bahia,
seu retrato no foco
é um berço de estrelas frias,
romântico espaço aberto
como um abraço 
de recanto,
multidão e deserto
cabendo no sorriso ardente
de um coqueiro.

Marcelo Asth

Praça Castro Alves, Salvador, 29 de janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Poema: Amálgama

PERISPÍRITO

Corpo e alma
amálgama
corpo em chama
gama a alma
clama
chama
química
que me queima
teima
funde espiritual

León Bloba

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Poema: Urubu



URUBU


Urubu, avoa daqui,
que eu canto brabo
a urucubaca bacana.
Urubu na espreita,
prepara tua tumba,
que bato macumba,
praguejo maleita.

Vai, urubu, avoa,
amor meu não é carniça.
É carne nobre, de primeira.
Não fica às moscas na xepa da feira.
Não fica à mostra pra quem quer que queira.
Ao Deus-dará, vitrine-lixão.

Amor meu é proteção.
Pra passarinho,
gaiola de ouro,
pio de carinho
e alpiste na mão.

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Urubu, voa bem alto -
ouve daqui meu despacho -
e prepara o sobressalto
na turbina do avião.

Marcelo Asth

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poema: Miragem

MIRAGEM

Ao sabor de minha miragem
perco minha âncora em teu mar
- deserto de ondas bravias -
sedenta do sal que enferruja e morde
toda a dureza e o peso de mim
(pois teu mar é um coração silencioso,
profundo de mistério).
Ilha de mar, percorro como gaivota planando
e todo o cerúleo, escuro, frio oceano
cabe em minúscia no meu olhar.

Marcelo Asth

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saí de Casa, Zabé da Loca

‎"Saí de casa pra beber água no mundo, quando vi, em um segundo, tinha um mar para nadar. Nada nadei, mar afora, mar adentro, só parei por um momento: comecei logo a rimar. Rima do boa eu ganhei em João Pessoa, ai ai ai que coisa boa, a ciranda me levar. Na maré-alta, maré-baixa, maré-cheia, se você não me aperreia, pego a onda e vou rodar. A onda, dentro da onda. Eu, dentro dela vendo o mundo a rodar. No vai-e-vem a vida passa ligeiro. Vou lá pro terreiro ver a onda passar. A onda, dentro da onda. Eu, dentro dela vendo o mundo a rodar. No vai-e-vem a vida passa ligeiro. Vou lá pro terreiro ver a onda passar."

Saí de Casa, Zabé da Loca

Poema: Velhicidade

VELHICIDADE


ver

Ele anda sondando
como um disco arranhando,
abrindo ideias estreitas
com sua força de Orixá
em máscara azul de um velho dragão -
e finge pegar fogo, aflito.
Nada me basta
e tudo me afasta:
horizonte não é sempre meta.
Por isso não me meto à besta,
de não me fazer festa
e sumir pelos ralos do rio
pra me escapar.

León Bloba