quarta-feira, 23 de maio de 2012

Poema: Contrato

CONTRATO


Hiroshi Tanabe

Perdi o tino
e assinei a sina.
Cadê o destino
que me assassina,
me corrói roendo,
corrompe em surdina?
Nas linhas da mão
se abrem abissais
rubras rugas de um contrato
onde rubrico ais.

Marcelo Asth

Poema: Entidade

ENTIDADE
Na encruzilhada, 
sobre a farofa servida,
a multidão de formigas
devora imperiosa
e vira entidade.

Na encruzilhada,
seres invisíveis 
se atrelam às luzes das velas.
E os faróis dos carros que cruzam
transversais e paralelas
não focam nos reais segredos
da cidade.

Joaquim Ramos - Nhô

terça-feira, 22 de maio de 2012

Poema: Maio

MAIO
Meio de maio
desmaiado à esmo.
Assim mesmo caio
junto ao mês sem freio
tendo outro meio inteiro
que já permeio cheio.
Saio do calendário
sem nenhum receio
e também me desmaio
me partindo ao meio.

Marcelo Asth

sábado, 19 de maio de 2012

Poema: Dionisíacas


DIONISÍACAS

Os tragôidos vão arrombar o mito!
Dite os rombos da estrutura
pro poeta costurar.
E os deuses confirmam o escrito,
arranjando a tessitura
pro ator se mascarar.

O coro vai comer o protagonista...
onde o bode amarrou o poeta?
Dionísio vai sacrificar o artista
embebedado em ritual de festa.

Vida de duplicidade, 
destino ambíguo, hermético:
O Oráculo de Delfos invade
o vitelino umbigo de Édipo.

Tirésias diz que esse finge,
que tudo sabe mas que é cego...
que fez acordo com a Esfinge
pra tornar-se o seu corego.

Debate de duplos na orquestra:
trabalhando seus discursos,
Édipo e Clitemnestra
preparam-se para os Concursos.

Discutem projetos de leis
que têm diferente fonte:
A dos deuses ou a dos reis?
Respondem Antígona e Creonte...

Da dita para a desdita,
no decorrer da trama
do dito pelo não dito,
comenta de forma aflita
o coro que assiste ao drama -
mesmo o que já foi predito.

Tragédias à parte,
comédias à tarde...
Dionísio só faz arte
com aquele que com ele arde.

Prepara-se o corpo corálico
cantando que falo em orgia.
Derrama-se nos cantos fálicos
antes da tetralogia.

Marcelo Asth

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Poema: Desgrécia

DESGRÉCIA


O Minotauro sofreu de labirintite.
Teseu perdeu o tesão - correu para o Viagra.
"Câmera IndisCreta" na Internet com Afrodite.
Fizeram agora um shopping no meio da Ágora.

Aquiles teve que amputar a sua perna.
Hércules disse que tá atrás de um trabalho.
Foi trabalhar no circo a Hidra de Lerna.
Virou moda o Leão de Neméia como pele em agasalho.

Prometeu bebeu - fudeu, deu problema de fígado.
Helena posou na Playboy e perdeu o posto de musa.
Deu câncer de pele o sol que bronzeava Ícaro.
Perseu perdeu a cabeça por decapitar Medusa.

"Ulisses é o maior fura-olho" - disse o Ciclope aos jornais.
Cronos virou atleta e vai correndo cada vez mais.
Ares trabalha na ONU com questões que envolvem a paz.
Na Assembleia do Reino de Zeus todos somos imortais.

Desgraça na Grécia
Destrói a Tróia na nóia
E até as ruínas de Atenas
têm problema de memória.
Monte o limpo destino de maneira contraditória.
Todo Herói caduca depois de contar sua História.

Marcelo Asth

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Poema: Pressente

PRESSENTE
e apenas sinto.
Sinto muito,
estou também presente.
Pressente que o mundo é grande,
mas que dentro dele não caberei pra sempre.

León Bloba

Poema: De repente

DE REPENTE
De repente, quando você menos espera,
você espera, espera, espera...
E quanto mais se demora,
mais hora, mais hora, mais hora.
E quanto mais se irrita,
mais grita, mais grita, mais grita.
E quanto mais se acalma,
menos alma, menos alma, menos alma.
De repente, quando você mais age,
mais coragem, mais coragem, mais coragem...
E quanto mais você se desespera,
mais guerra, mais guerra, mais guerra.

Marcelo Asth