domingo, 16 de setembro de 2012

Poema: Com

COM


Fazer um inferno com fogo de vela,
fazer um inverno com pedra de gelo,
fazer um outono com a folha amarela,
fazer primavera com notas de cheiro.

Fazer copo d'água em tempestade
e beber.
Ousar - corpo mole em terremoto -
e dançar.
Fazer do coração as tripas
e amar.

Fazer amor como quem faz guerra,
com sangue.
Fazer paz como quem faz trégua,
com sangue.
Fazer pulsar onde no peito está escondido,
exangue.

Marcelo Asth  

domingo, 2 de setembro de 2012

Poema: Impermeável

IMPERMEÁVEL

Eu sou aquele que passa:
sorriso na testa -
impermeabilidade.
Que todo futuro da semente
é raiz.
Passo.
Fico.
Mas sou longe e feliz.

Marcelo Asth

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Poema: A dama do lotação


A DAMA DO LOTAÇÃO

Cena 1

A mulher esconde a libido
Sob o vestido
Bem comportado.
O fogo que queima
Por dentro
Vai lhe ardendo
O desejo de brasa –
A mulher sai de casa
Quando tudo está pronto

(Ela está no ponto
E espera que pare pra ela
A condução que vem ao seu encontro).

Cena 2

A cada viagem
Vagueia olhares
Cruzando ruas,
Cruzando pernas.
A mulher, entre homens,
Colada nos corpos, viaja no aperto.
Não há rumo certo,
Nem longe, nem perto.
Somente desfruta
O roçar dos quadris –
Que no balanço das curvas
Todo homem é feliz.

Cena 3

Quantos dão num lotação?
Quantos cabem numa cama?
As respostas dizem aqueles
Que acompanham essa dama.

Têm parada obrigatória
Depois que dão o sinal.
Mudanças na trajetória
Levam sempre ao ponto final.

Marcelo Asth

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Poema: Embrulho

EMBRULHO

Quando o órgão dói, tudo para
com o fisgar da célula,
pêlo por pêlo despencando pêlo,
como o caranguejo,
ares de morfina.
Embrulho do presente constante,
a iminência do sempre
ainda.

Quando o órgão corta,
multiplica massa,
sangue, líquor, soro, mabthera.
Rituximab no catéter, éter, éter,
porte, ser ou não ser Hodgkin, 
eis a questão.

Metástase extasiada
abraço baço acessório,
fístula pílula comprimido
ar que me escapa.

Marcelo Asth

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Poema: Estalos

ESTALOS


a gente cria uma coisa no cosmos,

uns estalos de telepatia coriscando tudo:

fantasia de partícula de bóson

pra recriar outros mundos.


Frida Malev

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Poema: Agosto

AGOSTO

deixei o frio da noite entrar pela janela
e o inverno levou toda a minha névoa.

Marcelo Asth

Poema: Caça

CAÇA




Lora, lura, toca, lorga,
cava, escava, escavaça, catuca,
entra, enfurna, penetra, interna, 
subsolo, terra, piso, chão.


Lagomorfos,
leporídeos,
lebres e lebrachos
- láparos herbívoros -,
o caçapo
encaçapa esconderijo,
lorca, abrigo:
fuga do sabandijo. 

Pá!


León Bloba