segunda-feira, 27 de maio de 2013

Poema: Domingo


DOMINGO

Morreu em minhas mãos
Um domingo de sol.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Riacho


RIACHO

Acho que o riacho ri
Na perda entre as pedras,
No canto entre cantos,
No leito em que dorme,
Correndo, escorrendo.

Acho que o riacho ri.
Sim, ri.
Acho que ri de mim,
Mas ri baixo.

Acho que o riacho ri.
É o borbulhar das águas
Que ri das minhas mágoas.

Mal sabe o riacho que nasceu de minhas lágrimas.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Os Grilos


OS GRILOS

Onde estão os grilos de minha companhia?
Por quais outras trevas andam trilando?
Fico a esperar, contando estrelas...
O ócio do sofrimento
É descontentamento
E sinto falta dos meus grilos,
Minha distração na noite inquieta
Do meu coração ferido.

Marcelo Asth

Rio de Janeiro, 11 de março de 2007





Poema: Distração


DISTRAÇÃO

Emudeci porque murmurava meu nome.
Não sei se se lembra,
Mas vinha vestido de noite,
Olhos baixos, jeito frio.

Pediu a minhas mãos que o guiasse –
Seus caminhos eram tortos.
Eu me distraía.

Pediu a meus olhos
Que o iluminasse –
Era breu a noite sua.
Eu me distraía.

Pediu asas ao meu encanto –
Já me distraía tanto
Que tudo lhe concedia.

E já em outro tempo,
Envolto em outra magia,
De longe eu via
Você que voava...

Ainda me espanta!

E a distração era tanta
Que eu nem reparei
Que já te amava.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Quero


QUERO

Quero de Lorca, seu gris,
A melancolia de Clarice,
De Quintana, sua velhice,
De Vinícius, o amar feliz.
Quero a delicadeza da flor
Que é bela, mas me espanca
Com sua poesia.
Quero um mar de palavras
E eu, sendo ilha,
Brincarei nas ondas dos versos
Como fazia Cecília.
Escreverei minha tragédia,
Transcreverei o meu fardo
Com os arabescos das letras
Da pena do Bardo.
Quero a canção para o filho do rei
Que a aia de Quintana cantou à noite.
De Castro Alves, quero o açoite,
Que é seu grito pra liberdade.
Quero saber toda a verdade!
Quero cantar a primavera!
Quero os vermes de Brás Cubas
No enterro de minha última quimera.
As idéias novas de Arnaldo Antunes ou Melamed:
Eu quero! Eu quero! Eu quero!
Mas eu não sei a quem se pede.
Quero as pessoas de dentro de Pessoa,
Cada uma com um jeito.
Quero todo o amor do peito
De todos os versos que ouvimos,
Toda a dureza que lemos
Em Lara de Lemos.
Ouvir estrelas com Bilac,
Ter a esperança de Drummond,
De Gullar, o ataque
E rimar o que é bom.
Estarei sempre querendo,
Querendo atingir minha meta
E talvez com tudo isso,
Um dia me torne um poeta.

Marcelo Asth
(2004)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Poema: Movediça

MOVEDIÇA

Tudo quebradiço na frieza frágil.
Tudo é cansaço, areia movediça.
Nada é inteiro, falta um pedaço.
Laço que desfaz porque é de seda a fita.
Abraço que não traz porque a vida é seca.
Talha o solo ao sol porque a terra racha.
Acha que é porque a vida sempre é cedo.
Medo que desarma a alma surda, aflita.
Flauta que não canta porque sofre de asma.
Pasma quando vê que todo dia acaba.
Mágoa que derrete todo instante ameno.
Peno de saber que dia desses morro.
Corro até de mim, pois que, senão, me engulo.
Pulo do abismo, pois que, senão, eu vôo.

Gregório Binder




segunda-feira, 18 de março de 2013

Gás


GÁS

Eu estou triste 
como a música 
do caminhão de gás
Que vai fundo 
Nas entranhas
E em ruelas -
Roendo o dia
No mistério
Auto falante
Lá de trás,
Do outro tempo
Em que despenca
A poesia.

León Bloba