segunda-feira, 27 de maio de 2013

Poema: Camelos


CAMELOS

As patas dos camelos
Pisoteiam areia em grão.
Andam léguas, amaciando caminhos,
Queimando no calor que sobe do chão.
E que corcovados montes nas costas
Sem Cristo pra abençoá-los...
Vão solitários, apenas vivendo pra andar.

Marcelo Asth
(2004)

Poema: Endorréico


ENDORRÉICO

Desfaz na foz
O leito e o jeito
De fazer curva
Da água turva
Que chega ao mar.
Mas que mistério
É o endorréico...
Rio desliza em liso desrio
E faz-se mar.
Dentro do mar tem rio.
Dentro do rio tem mar.

Marcelo Asth
(2006)

Poema: Suicídio


SUICÍDIO

Se senta no parapeito e pensa.
Sessenta segundos imersos no ar.
O mundo girando nos traz a tontura
De pensar.

Se tenta num súbito pulo...
Setenta segundos imerso no ar.
A mente pulsando nos traz a tortura
Do pesar.

Marcelo Asth
(2006)

Poema: Vento


VENTO

Eu vento
E só assim eu apago as lembranças,
Torrentes, borrascas, procelas,
Livro minha alma das celas
E reinvento a esperança.

Assim,
Dou o grito do século
Com um toque de lástima,
Faço escorrer uma lágrima
E eu inundo o deserto.

Eu vento
E só sendo vento
Eu sopro o lamento
Pra longe de mim.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Domingo


DOMINGO

Morreu em minhas mãos
Um domingo de sol.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Riacho


RIACHO

Acho que o riacho ri
Na perda entre as pedras,
No canto entre cantos,
No leito em que dorme,
Correndo, escorrendo.

Acho que o riacho ri.
Sim, ri.
Acho que ri de mim,
Mas ri baixo.

Acho que o riacho ri.
É o borbulhar das águas
Que ri das minhas mágoas.

Mal sabe o riacho que nasceu de minhas lágrimas.

Marcelo Asth
(2005)

Poema: Os Grilos


OS GRILOS

Onde estão os grilos de minha companhia?
Por quais outras trevas andam trilando?
Fico a esperar, contando estrelas...
O ócio do sofrimento
É descontentamento
E sinto falta dos meus grilos,
Minha distração na noite inquieta
Do meu coração ferido.

Marcelo Asth

Rio de Janeiro, 11 de março de 2007