domingo, 9 de junho de 2013

Poema: Espirais


ESPIRAIS

Surdo como o tempo
Nas borbulhas secretas do poente
À espera dos seres que me bebam
Lançando em espiral minhas partículas
Pros ontens, pros aléns,
Pra qualquer esfera estremecida.
E de lá os bumbos dos peitos
Recordarão do meu nome
E farão sentido 
Quando o sereno silencioso
Tudo consumir em mim.

Marcelo Asth

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Poema: É


É

.Eu me encontro é no desencontro.
.É no instável que me sinto pronto.
.Em início de frase é que uso ponto.
.É estando parado que mais fico tonto.
.É seguindo reto que me ponho torto.
.É sendo navio que me sonho porto.
.É estando vivo que me sinto morto.
.É estando vivo que me sinto morto.
.É estando vivo que me sinto morto.

Marcelo Asth
(2006)

Poema: Bodas de Sangue


BODAS DE SANGUE

Lá vem a velha requitivelha
Com a navalha para esconder...
Seu outro filho morreu em batalha -
foi a navalha que o fez morrer.

Seu filho novo tornou-se noivo
De uma mulher que quis o inimigo
Em seu passado tão mal passado
Que foi buscar pra ti um mais amigo.

Lembra que quando de casa sair,
Sai então como estrela.
Fartura de uva e rami!
Os frutos nascem para vê-la.

Tão bela noiva, tão desgraçada.
De um homem, de braços pobres
Para um braço rico que trabalha
Pra juntar seus ricos cobres.

Mas o amor - que traiçoeiro! -
Vem a galope num trote de arqueiro
Que em movimento acerta o peito em cheio
E trás de volta a moça ao seu recreio.

Então a nora vai-se embora
(é seu destino e agora chora),
Com um felino, pai de um menino
Que nesta hora está a ninar.

O cavalo não bebe mais a água,
A navalha não desfaz a mágoa.
Põe-se a triste mãe então a chorar.

Lá vem a velha requitivelha,
Não tem navalha para esconder...
Seus pobres homens foram em batalha,
Com a navalha que os fez morrer.

Marcelo Asth
(2007)

Poema: Poema do Instante


POEMA DO INSTANTE

Um instante só.
Eu, poeira das nuvens,
Entre sombras do tempo
A cumprimentar fantasmas
Numa rua molhada de chuva...
E os olhos fechados,
Para sempre.

Marcelo Asth
(2006)

Poema: Camelos


CAMELOS

As patas dos camelos
Pisoteiam areia em grão.
Andam léguas, amaciando caminhos,
Queimando no calor que sobe do chão.
E que corcovados montes nas costas
Sem Cristo pra abençoá-los...
Vão solitários, apenas vivendo pra andar.

Marcelo Asth
(2004)

Poema: Endorréico


ENDORRÉICO

Desfaz na foz
O leito e o jeito
De fazer curva
Da água turva
Que chega ao mar.
Mas que mistério
É o endorréico...
Rio desliza em liso desrio
E faz-se mar.
Dentro do mar tem rio.
Dentro do rio tem mar.

Marcelo Asth
(2006)

Poema: Suicídio


SUICÍDIO

Se senta no parapeito e pensa.
Sessenta segundos imersos no ar.
O mundo girando nos traz a tontura
De pensar.

Se tenta num súbito pulo...
Setenta segundos imerso no ar.
A mente pulsando nos traz a tortura
Do pesar.

Marcelo Asth
(2006)