terça-feira, 5 de novembro de 2013

Vapor



Fui rasgando a seda que revestia o gozo -
Cobra na troca do espesso couro -,
Ardendo carne no oxigênio,
Queimando as bordas de estranhas vestes.

Despelar labirintos das cascas inertes,
A airosa pele antes esquecida.
Não mais andrajos, nem mais adornos...
Talvez a áurea da manta celeste.

Num movimento como o das dormideiras,
Minhas folhas foram tecendo tímidas
Rastros que abriam o delicado ventre
(Pra eu entender que por debaixo tinha
As muitas camadas e espaços entre).

E o poroso tecido que meu corpo abria
Sugou, como por osmose, o meu amor no mundo,
E fez com a luz, como com a clorofila,
Em devoção, devoração do Sempre -
Como animal bebendo o leite fresco cósmico,
Num estranho processo natural de cria.

Minha pele deu dois goles no rio, no vapor e na força
E nutriu-se verdadeira de poesia.
Não só meus olhos, que só me conduziam:
todo meu corpo comungando a vida.

Príncipe Orclã

domingo, 22 de setembro de 2013

CURA

CURA

Quem pula sem o preparo
É capaz de vomitar
Preparado divino
Faz sapo querer voar

Sansara cururu maracá 
Sara aqui cura acá
coração cura ação
Sapo pula ali e lá
Entre céu entre chão
Sansara roda na mão
Maravilha vi rodar


Ió Landa

domingo, 15 de setembro de 2013

Poema: Segredo

SEGREDO


- Cara, alho dourado no óleo!
(Olho você bolado com tudo refogando...)

•—•

O segredo do feijão moreno
É o louro.


Marcelo Asth

Girândola e farândola

um peixe esquisitíssimo de nome fascínio operante, abarcando todo o calor do poente na calma de uma poça gigante mar vivo, vindo à tona pra descobrir delícias e dar olhos no beijo de deus, cantando pro encanto da floresta da tijuca e às florações de todo tempo passado porvir. este peixe de escamas de olhos tudo avista antes de existir e depois parece que vai embora, mas ainda dedica mil olhos sobre ti, percebendo cada euforia de tua vida cada instante. se se olhas bem o que está ausente - e que mais brilha por ser essa distância que não se vê -, à espreita e dentro de ti esse bicho enigma se esconde, se revela sem ao menos mostrar-se, na magia da proxemia, escondendo-mostrando, do delírio triunfante e neutro de um algo fora. se precisares o teu parco olhar sob este estranhíssimo, ficarás deveras em zonzeio, que suas imagens se mutiplicam justapostas e se dividem estilhaços num além do percepto cerebral. sabes de um peixe, mas a característica maior de sua carestia repleta abundante é apenas um terço de qualquer partícula de um segundo teu - que é maior do que o triplo do universo que ousamos definir que conhecemos.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Poema: Poda

PODA


 A motoserra erra
Cortando o bem pela raiz?
Erra uma vez, duas, muitas -
E vão quedando galhos.

Quando árvore chora:
É poda!


Marcelo Asth

domingo, 1 de setembro de 2013

Poema: Ouvido Direito

OUVIDO DIREITO

A corda estica:
Pane na ventuinha.
Vou para o estado zunido da onomérica 
feérica pertipotérica histérica mente.
Sente asa de bicho alado dentro da orelha,
Centena de vôos na bateção...
Não sei se tenho ouvido direito -
Nem esquerdo mais -,
Mas tento o centro.
Abre-fecha movimento,
Pressão ou borboleta
Lenta-rápida, 
Como o início do som da cigarra
Indeciso com coragem.
Bulbo abrindo-fechando,
Balbuciando o estouro.
Pica-pau picareta,
Êta! Britadeira tiroteio de borbulha,
Rugido de porta velha -
Tem alguém morando na minha cabeça!
Otorrino pra não chorar...
O ronco-barulho de rede ia e vinha,
corda do barco estica crec-rói.
Pira na ventuinha.

Marcelo Asth


Hoje, desde as 7h da manhã, meu ouvido direito está pulsando num zunido insistente, coisa chata, preocupante. Zumbido doido, que não para, martela martelinho. Na verdade é um não-zumbido, pq não parece frequência de tv, raio catódico. É coisa de abre-fecha por dentro e, no ouvido, fica mais doido ainda...

Daí deu vontade de escrever impressões do que tá pulando na cabeça. 

Taí o poema:

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Você veio primeiro


Você veio primeiro.
Antes de existir, já existia
no canto de um pássaro inquieto,
nas águas mais apressadas,
no sol do mais vivo janeiro
e no vento-redemoinho
do mês do seu nascimento.
Reinaugurou a palavra amor
e deu a ela o redondo de um ventre.
Forçou os limites do abraço
e instalou riso e canto
nos ecos de suas palavras.
Você veio primeiro.
Sou eu a sua caçula.
Perdoe a minha insegurança
e dê sua mão de mais velho.
Me ensina a domar o fogo,
me ensina a pisar nas brasas
com a mesma graça.
Me ensina onde se esconde a alegria
e, se puder, me guia
até a morada de estrelas
em que repousa a sua cabeça.


29/6/2013


De Daniela Asth para Marcelo Asth