sábado, 25 de janeiro de 2014

MÃO À PATA

MÃO À PATA
 
Não matar um leão por dia:
domá-lo sem chicotes,
sem provocação do medo
no arremedo do poder.
 
Encará-lo e ver lindos seus dentes,
sentir seu bafo de fera,
seu sangue de raça
e sua alma de terra.
 
Ver Deus acenando em sua goela -
prova viva do respeito mútuo.
Tocar sua juba deserta, seca, vistosa,
acariciá-lo com mãos de uma árvore dura.
Fazer dos olhos um espelho
e mostrar seu dentro -
que lá há um leão também brincando savanas,
há bestas sonolentas e outras panteras
roendo a carne do seu pensamento vivo.
 
Deitar ao seu lado
dando mão à pata
narinas ao focinho,
reconhecendo,
se apresentando à força
no brilho
ponderável
da presença.
 
Forte selvageria atávica,
virar bicho,
virar sereno,
veneno,
mato,
flor,
trigo.
 
Não matar um leão por dia, nunca.
Amá-lo na rigidez dum rugido.
 
 
Marcelo Asth

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Divino Feminino

DIVINO FEMININO
 
 
A primeira porta de saída
Porta de entrada pro desconhecido

 
De todo ano velho que eu parto
Parto pro novo gerado e gerido

A vida se anuncia de possíveis
Abra seus mil olhos pro que é merecido

Toda mulher guarda um mistério crível
De reproduzir um mundo desmedido

A mulher é verbo e adjetivo
Plural Substantivo feminino

Aja linda ainda que pareça finda
A esperança, que sempre ilumina

Seja menina ou menino
Brota no feminino
O recomeço, o passo, o aço
O laço, o traço que se firmará

Realizando o destino
Brilha no ser divino
Dia após dia, cria, ria,
Fantasia a se renovar

A Primeira casa
A Primeira asa
Uma mulher

Nananananã
Nananananã
Uma mulher
 
 
 
Marcelo Asth

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

RADIOU

RADIOU

O mistério é cristalino,
Basta apenas enxergar.
O mistério é cristalino,
Basta apenas enxergar.
Mas pra isso é bom abrir
Não só olhos, mas bem mais.

Radiou uma Paz,
Radiou uma Paz
Pelos olhos do Amanhã,
Pelas bocas lá do Atrás.

Radiou uma Paz,
Radiou, irradiou,
Radiou, radiou
No presente dessa Paz.



Príncipe Orclã

FOGO

FOGO


Bruxuléia a chama no toco,
 O fogo na dança serena.
Queima e crepita a matéria,
Madeira estalando se agita.
Basta um olhar no que queima,
Consome o mal que te espreita,
Chama pra terra o oblíquo,
Sobe a fumaça que eleva.
Leva o viço da seiva,
Lambe a casca da selva.

Enquanto se baila a chama,
O mundo balança em espera.


Príncipe Orclã

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sabedoria

SABEDORIA


A dois mil pés, abaixo do fundo improvável,
O bicho profundo soprou meu nome
E o silêncio o coroou na sabedoria.
A borbulha fétida dos gases mestres
Subia lenta nas correntes gélidas
E sacudia todo o bastante mar vibrando.
Bateu na cauda da baleia e nos trouxe mais um segredo do mundo.

Dois mil anos após,
Na praia congestionada de corpos,
Ardi meus olhos no sal da onda
Que me trouxe ainda vivo
Meu nome rasgado das bocas de outrora -
Abissal melodia lançada na areia.

Admirável proeza do tempo,
Fazer dos mistérios divinos
Algo velado, sereno e invisível no mundo.

Príncipe Orclã

domingo, 8 de dezembro de 2013

Tudo

TUDO

As veias da minha testa
Ponta dos galhos da árvore
Raízes engordando
Vasos no branco do olho
Canais dutos corredeiras
Cascas que envolvem o sagrado
Derramando e esquentando

Aquela onda batendo no peito
E o sal enchendo os olhos
Rodai moinho rodamoinho girando
A galáxia formando
Todo o pó liquidificando
Rodai espirais de encanto

O fluxo vibrando rodando
Nada está, estável, pés firmes mudando
A dança viva dançando
E a gente também cantando


Príncipe Orclã 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Vapor



Fui rasgando a seda que revestia o gozo -
Cobra na troca do espesso couro -,
Ardendo carne no oxigênio,
Queimando as bordas de estranhas vestes.

Despelar labirintos das cascas inertes,
A airosa pele antes esquecida.
Não mais andrajos, nem mais adornos...
Talvez a áurea da manta celeste.

Num movimento como o das dormideiras,
Minhas folhas foram tecendo tímidas
Rastros que abriam o delicado ventre
(Pra eu entender que por debaixo tinha
As muitas camadas e espaços entre).

E o poroso tecido que meu corpo abria
Sugou, como por osmose, o meu amor no mundo,
E fez com a luz, como com a clorofila,
Em devoção, devoração do Sempre -
Como animal bebendo o leite fresco cósmico,
Num estranho processo natural de cria.

Minha pele deu dois goles no rio, no vapor e na força
E nutriu-se verdadeira de poesia.
Não só meus olhos, que só me conduziam:
todo meu corpo comungando a vida.

Príncipe Orclã