quinta-feira, 22 de março de 2012

Poema: Margens

MARGENS

vou correndo por suas margens,
desenhando teus contornos de rio,
por vezes metendo o pé onde não se pode andar.
vou saindo do Estige e
vou molhando o calcanhar nas águas,
no sangue da Hidra de Lerna,
molhando a canela, a coxa, a perna,
o tronco, as mãos que pendem como galhos secos,
os cotovelos que dobram no frio
como as esquinas do rio que vai ficando imenso,
caudaloso, e eu ficando cuidadoso pra não cair,
vou molhando os ombros, as axilas se tomam de água
e a ponta dos cabelos da nuca emergem
e aos poucos a água me toma boca, cobre narinas,
molha os olhos e me engole
para sempre.

León Bloba

Poema: Fiat Lux

FIAT LUX
(CANTO DEMIURGO 1)



"Fiat lux" - chamou o isqueiro.
A sombra se fez na fresta.
"Fiat lux" - tentou achar a luz
e afugentou a escuridão.

"Fiat lux" - se fez em festa.
"Fiat lux" - estampou a cor.
"Fiat lux" - é o que nos resta
antes de sumir o clarão.

"Fiat lux" - no centro do mundo.
Fiat é fogo que freme e é profundo.
Fia-te, linha, faísca no breu.
Fite a chama que emana do eu.

Marcelo Asth, Lucas Nascimento e Cíntia Luando

segunda-feira, 12 de março de 2012

Poema: Modamundo

MODAMUNDO



Do Oiapoqui a Paris
A moda dita,
O mundo adota,
 A roda diz:

/ Mude a /
/ Mídia em /
/ Made in /
/ Mede um /
/ Moda on /

/ Abra-se! /
/ Feche/ oui / quê? /
/ Fashion quem? /
/ Flash em quê? /
/ Flesh fresh! /

/ Se mete no métier /
/ Meat in the showcase /
/ Case com um italiano /
/ Bella mia /
/ Bulimia /
/ Náusea /
/ Now! /
/ Enjoy! /
/ Já enjoou… /
/ New! /

/ Bikinis from Brazil /
/ Bermudas from Bermudas /
/ Très très chic /
/ Parfum de ma boutique /
/ L'acqua di Fedore /
/ Um chiqueiro /
/ Brega e Chique /
/ Attack on the tacky /
/ Cartão, dinheiro ou cheque? /

Modamundo,
Modagigante,
Modaemoferta,
Liquidação:

/ Coleção Verão /
/ Quem não viu, não vestiu /
/ Toda a moda fecha /
/ Desfilando no passado... /
/ Summer Collection /
/ Somem com a old-fashion /
/ Remodela a loja /
/ Quero o estilo alheio /
/ Diet shake soja /
/ Off sale /

Marcelo Asth

segunda-feira, 5 de março de 2012

Poema: Guarida

GUARIDA



Sonhava os ruídos de sempre,
Marcando teu corpo em lençóis
E vinhas trotando em desejo,
Espetando o salto entre névoas.
Parecias possuída
Rindo tua imagem de fera,
Cavalgando em estado alfa
Tolos rastros de um delírio.
Processava tua imagem
Com ares de utopia
E galopavas pelas brechas
Onde deitava minha espera.
E enquanto eu me esquecia
Nas brenhas do instante onírico,
Fazias do sonho, guarida -
Tomavas de mim o meu mundo.

Marcelo Asth

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Poema: Manchete

desenho de Santiago Caruso


MANCHETE

Assombroso televisivo
achincalha opressor o fato
e os ossos se tremem
no conforto do lar:

Milhões de globos oculares
assustam-se com a vida -
o globo gira.

Arregalam nas órbitas
surpresas fatigadas.

Alagou, caiu, derrubam,
matam, morre, removem,
milhões, perdeu, aconteceu,
desmatam, afundou,
nesta manhã, tarde, noite
eterna que acontece o mundo.

Boa noite.






Marcelo Asth

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Poema: O Tal

O TAL

Bate palma,
paga pau,
paga peito,
pega tudo 
o que for feito pelo tal.
Sente o tato,
pelo falo,
pelo fato
do status aumentar.
E é foda,
é uma roda -
quem está fora vai rodar.

Só porque não oro ao deus,
só porque eu sou ateu,
contra mim querer ser teu.
Entidade, puta, deusa,
suma celebridade,
supra sumo do nariz em pé
do meu país.

E tem gente que faz tudo
só pra ficar desnudo
e achar que é feliz.

Fernando Rublón 

Poema: Preguiça

PREGUIÇA

Preguiça é feita de cola - 
desfeita não aceitar 
um convite pra sonhar.
Pés presos,
rizoma de grama,
riso frouxo prum não esforço
de gargalhar.
Enguiça o corpo
se este pede pra esticar,
sem a vontade
da melancolia esvaziar.
Não choro para não manchar o rosto -
desgosto ver o olho desbotar.
Coragem age em quem perdeu a cola
e a preguiça não permite decolar.

León Bloba