BUEIRO
O poema explode o dia
Como a tampa de um bueiro,
Por não saber de silêncio,
Derrubando o sigilo.
Estrondo de parar trânsito,
Cachão que espoca vida,
Palavras a mais que se espalham.
Proeza provém da poesia.
É próprio fazer este alarde.
Como se aplica, é estúrdia.
Somente porque ele respira.
Semente porque ele é balbúrdia.
Vazão com toda a sua força -
Verão do bueiro estilhaços.
Manchete que jorra a farra
Diante de olhos tão baços.
Falando do nunca falado,
O poema se arremessa
Rompendo com todo o sentido -
Perigo de quem vive a pressa.
Altamente corrosivo,
Chovendo na rua repleta
Sobre os chapéus que protegem,
Como uma chuva de setas.
Imprime naquele que oprime,
Margeia as linhas do lado,
Esfola com tanta coragem,
Mitiga o cristalizado.
Esmola pro oprimido.
Audácia pro conformado.
Escola pro dividido.
Certeza pro descolado.
O poema tudo desnuda
Em sua natureza pelada,
De mostrar o que está escondido
Dentro deste “fazer nada”.
O poema explode a tampa -
Grande parte está por baixo.
Estampa o olhar que espanta
O marajá e o populacho.
Todos vêem o que incomoda.
Na moda da mídia, a notícia.
Nos centros, nas bordas, na roda,
Ataca a esbórnia política.
Cada bueiro que explode
Muita coisa evidencia.
Quem não vê que se acomode
No que pode a hipocrisia.
Assim sempre, assim sendo,
Toda vez que sigo andando
Estouro um bueiro na rua
Quando me pego pensando.
Marcelo Asth
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