sábado, 16 de julho de 2011

Poema: Lugar Comum

LUGAR COMUM
 
 
 
Pra quem não conhece tanto -
Por ser tão longe e distinto -,
Sertão é terra de pranto,
Sertanejo é um faminto.
E pra ilustrar este canto
Posso investir no que sinto
Sobre esta terra de santo,
Lugar comum que eu pinto:

Semi-árido o cenário
De uma palheta singela
Que o solo desdobra vário
Do quadro de uma janela,
Mostrando o pincel precário
Em que a tinta se revela -
No laranja agrário e diário;
No acre, o ocre da tela.

No solo rachado vinga
O mandacaru formado.
Sem flor nem chuva que pinga,
Cresce forte e empoeirado
Com espinhos de seringa
Que apontam pra todo lado -
Vence e teima a caatinga
No que pode neste quadro.

A secura o tempo estica:
A sede da água é sonho.
Rio temporário fica
Na memória em nó medonho.
O roçado, uma coisica
Vazia num chão pidonho.
O leito, a água não bica.
No eito, um jeito tristonho.

Encangado, o sol a pino,
Quente torra o desertão,
Ditando todo o destino
De quem mora no Sertão.
Sobre o cambito fino,
O equilíbrio torna em vão
A força que faz o menino
Pra ficar de pé, então.

Em riba do barraco torto,
Um abutre emburrado
Avista um bezerro morto
Que em esqueleto está moldado.
Descansam num desconforto
Os ossos de seu passado,
Enquanto, de olhar absorto,
Mira o abutre esbugalhado.

Por baixo da telha quente,
Entre as paredes de adobe,
No pavio da vela ardente
A chama sabe que sobe
Só pra levar do doente
A dor que quiçá o afobe,
Quando orando bate o dente -
Que a alma a morte não roube.

Nas brenhas que a fé alcança,
Se coisa ruim ou maleita
Desafiam a esperança,
O sertanejo se ajeita.
É com a fé que ele avança;
Seu altar ele enfeita,
Pondo ali sua confiança
Pra ver se tudo endireita.

Num lampejo em que se lança,
Pra ver se a vida melhora,
Entrega-se em desvairança
O sertanejo que ora.
Enquanto espera a bonança,
Nem olha o mundo lá fora –
Que o mundo é seco e cansa
Praquele que agora chora.
 
León Bloba

Nenhum comentário:

Postar um comentário